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28 de outubro de 2016

Por que temos medo do escuro


Temos medo do escuro porque não nos reconhecemos na própria sombra projetada no chão. Temos medo do escuro porque, quando pequenos, nos contam que é lá onde os monstros moram. Quando crescemos, entendemos que a hora do escuro é também a dos milhares de pensamentos e que eles viram as temidas criaturas da infância.

Temos medo do escuro porque é debaixo do tapete que está a poeira e, para limpar, é preciso vê-la. Além do mais, não podemos esquecer, o escuro é onde primeiro vemos, mas temos medo de retornar para o lugar de onde viemos. Temos medo também porque, mesmo às cegas, sabemos que o escuro é o que por último vemos.

Temos medo do escuro porque o escuro está em nós. Digo, literalmente. Nas pálpebras fechadas, no buraco do ouvido, na boca aberta, no umbigo, nas narinas e em outros orifícios. E não literalmente também. Já pensou se esses pequenos buracos negros aumentam e se tornam parte do escuro de que temos medo?

Temos medo do escuro porque é o que observamos quando descansamos, beijamos, meditamos e choramos. Temos medo do escuro, porque o que os olhos não veem o coração teme. Temos medo do escuro porque os melhores esconderijos e sustos eram nele. Tememos porque sabemos que ele vem, mas também que ele se vai. Temos medo porque não enxergamos além dele. Tememos porque toda luz provoca sombras.


Temos medo do escuro porque ele é a simplificação da vida, e não queremos modestidade. Queremos algo mais, queremos ver além do escuro. Queremos a luz, sem a sombra. Queremos os pensamentos, sentir o tapete, cegar ao sol. Poder ver o buraco, a cama deitada, o rosto beijado, as pernas cruzadas, a água derramada, o lugar secreto e o dia nascendo. Temos medo do escuro porque algum lugar tem de parecer seguro, e já tão cedo aprendemos a não temer a luz.  

9 de outubro de 2016

Confissões de uma autora assassina



Eu sempre quis matar alguém importante. Já tentei os mais comuns, mas nunca fui capaz de matar a personagem principal. Aquela que todo mundo ama. Aquela que todo mundo torce. Criaria a história mais envolvente do mundo só para que ela morresse no final. E o leitor ficaria com ódio de mim, como tantas vezes fiquei de muitos autores. Essa gente que foi muito mais corajosa que eu. Gente que assumiu: matá-la irá me doer, mas tornará essa história inesquecível.

Não. Não sei como ter, se tenho ou se treino essa maldade. Tanto tempo construindo a personagem, aplicando dramas durante a sua vida, fazendo ela passar pelas mais altas provas para tudo acabar em morte. Como eles conseguem? E toda aquela responsabilidade de matar o ser que você mais ama? É muito mais difícil escrever a morte do que a ler. Uma vez fiz uma das minhas personagens favoritas passar por um grande drama (não era a morte) e quase me afoguei em lágrimas.

Enquanto não apago a chama da minha história vou matando pelas bordas. Um personagem secundário aqui, outro terciário ali... mas acho que um serial killer já  nasce dominando a arte, não é mesmo? Ou talvez seja uma questão de sentimento. A gente sabe quando alguém vai morrer. Sente-se que é necessário matar. Como se notasse que é chegada a hora. Como se fosse o próprio Deus. Não consigo parar de pensar que pode ser assim conosco também. E se a arte imita a vida, então está explicado porque a personagem principal ainda não morreu.

8 de julho de 2016

Carta de um fã palpiteiro


Queridos roteiristas do seriado “House of Brasil”,

Fico pensando de onde tiram tanta criatividade. Achei excelente a primeira temporada, especialmente os últimos episódios, que culminaram com o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Derrubar um governo usando como argumento uma pedalada fiscal que vários políticos já fizeram — como o capítulo “A volta dos que não foram: todos somos pedalados”, primeira temporada, muito bem mostrou — é, sem dúvidas, uma tacada de mestre dos roteiristas. As reviravoltas foram impressionantes, porém a que mais me deixou sem ar foi quando Eduardo Cunha renunciou — sinceramente, eu achei que ele seria o grande vilão da série, espero que estejam pensando em algum tipo de volta triunfal para ele — dando ares para o novo presidente interino da câmara dos deputados, no final do episódio “O Império Contra-Ataca: A Decisão de Maranhão”, tentar cancelar o Impeachment. Meu coração quase veio na boca!

O que mais apreciei no episódio “Votação na Câmara na Frente das Câmeras” foi que vocês deram destaque para a deputada Raquel Muniz exaltando o nobre prefeito de Montes Claros que, segundo ela, estaria realizando uma gestão exemplar. E então, na cena pós-créditos, ele foi preso no dia seguinte! Pensei que após a “season finalle”, com o afastamento da Presidente, o seriado daria uma esfriada. No entanto, a segunda temporada está sendo tão boa quanto a primeira, ou até melhor. Os episódios de gravações da Lava Jato estão muito mais intrigantes. Os personagens Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney estão exímios. Talvez vocês poderiam ser mais realistas e ter menos preciosismo com os personagens. Não é apelativo demais que políticos com tais áudios nunca vão parar atrás das grades?

Ademais, adorei a referência aos livros clássicos de distopias. O ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, que tanto promoveu a violência policial contra negros e pobres, tornou-se o titular da pasta da Justiça. Lembra muito a composição ministerial de “1984”, do George Orwell, em que o Ministério da Paz é o que promove a guerra. Um personagem que teve participação bastante ativa na primeira temporada e está um pouco sumido nesses capítulos mais recentes é o Lula. O episódio do sítio e tríplex não ficou bem resolvido e é uma ponta solta importante da série.

Sobre Temer, acredito que vocês poderiam ter escolhido um ator melhor para encená-lo. Às vezes ele me parece um vampiro, inexpressivo demais — não que Dilma seja melhor atriz que ele. É curioso que todo país tem um presidente e o Brasil nesse seriado, que se mostra um local de muita riqueza, tem dois.  Outro fato é que às vezes vocês exageram nas ironias. O presidente do senado, é também o que defende o fim das gravações. Nove dos ministros do Governo Temer foram citados na Lava Jato. Sem falar da extinção — e posterior retorno — do Ministério da Cultura. Talvez não seja um recurso narrativo tão eficiente fazer os personagens tomarem decisões das quais logo se arrependerão e voltarão atrás. Aliás, ainda bem que agora vocês tiraram um pouco o pato do pano de fundo das imagens (apesar de eu achar que ele atua melhor que o Temer).

Gostaria de parabenizar pelo trabalho que vêm fazendo semana após semana. Deve ser difícil manter a audiência entretida durante tanto tempo com um tema que não atrai muitas pessoas como a política. Fora que nunca sei em qual personagem acreditar. Parece que vocês não vão deixar sobrar nenhum para ser o mocinho. Mas pensem com carinho no Moro. E lembrem-se, como diria Nietzche: “A arte existe para que a realidade não nos destrua".

Ass.: Uma pessoa que os admira profundamente, mas com ressalvas.

26 de maio de 2016

Como conseguir disciplina para escrever?



Sabe aquela sensação chata quando o dia acaba e você não escreveu nada? Para ser sincero, não conseguimos entender como o relógio pode avançar tão rápido! Mas isso não é um problema só seu, acredite.


A solução é o que todos nós precisamos diariamente na vida: uma boa dose de disciplina. Por isso, reuni 10 dicas que ajudaram a me colocar nos eixos. Elas foram criadas por mim ao ir testando e vendo o que dava ou não certo. Hoje, acabo de terminar um livro de aproximadamente 500 páginas seguindo essas principais regras. Foi aí que pensei sobre como elas poderiam ser úteis também para outras pessoas. No final do dia, desejo que você tenha conseguido alcançar o melhor de si ao escrever! Se tiver dicas também, não deixe de compartilhar com a Coruja. Afinal, ajuda é sempre bem-vinda! Mas agora vamos lá:


1. Tenha um fã (ou vários)
Convide alguém com disponibilidade e que, de preferência, ame ler o gênero que você escreve. Vale de tudo: mãe, pai, tia, namorado, professor, um bom amigo. É para essa pessoa que os capítulos ou textos serão mandados assim que você terminá-los.
Mas lembre-se: ela não precisa ser especialista em português ou histórias. É claro que se for, melhor ainda. Porém, o objetivo principal é ter uma cobrança exterior impulsionando você. Afinal, todo autor quer ser lido, certo? É muito empolgante ver as reações de um leitor ao longo da história (conversas com eles e saber suas expectativas pode, inclusive, dar novas ideias), e é esse sentimento e a curiosidade pelas próximas palavras que poderão ajudá-lo muito a estabelecer uma disciplina. Afinal de contas, agora não dá mais para desanimar e deixar uma dívida com o mais novo fã.


2. Use os momentos mais produtivos do dia
Tem gente que possui um pico maior de energia à noite; outros, à tarde. Algumas pessoas precisam dormir menos e outras, mais. Por isso, é importante conhecer comportamentos pessoais e tentar usá-los a seu favor! Porém, se você for do tipo que é mais produtivo de manhã e só tem tempo à noite, procure rascunhar em um mesmo horário sempre, mesmo que não saia nada. Desse jeito, o hábito vai sendo criado.
Não se esqueça de que, assim como existem períodos melhores, há dias mais produtivos também. Por exemplo, muita gente não trabalha nos finais de semana, então é bom usar o sábado e o domingo. O importante é não se pressionar, porque se existe algo louco para travar a nossa criatividade, esse algo é o estresse.


3. Persista!
As primeiras tentativas podem ser um pouco frustradas. Mesmo se nada estiver dando certo, imponha-se uma regra de escrever ao menos uma hora por dia.  Em algumas vezes, pode acontecer de você ficar olhando para a tela, escrevendo e apagando, escrevendo e apagando. Se, depois dessa tentativa, nada sair, faça uma pausa.

Mas, na maioria das vezes, esse é o período suficiente para entrar totalmente no mundo da fantasia e ter alguma ideia. Nesse estágio, faça um rascunho com tópicos do que vai acontecer ou o que será abordado, pense também em formas diferentes de narrar o que imaginou. Mesmo se odiar o que acabou de fazer, não desista antes de completar uma hora no relógio.


4. A atividade não deve envolver outras
Não adianta nada separar uma parte do dia, usar os momentos mais produtivos e ter alguém incentivando se você ficar olhando conversas, redes sociais e sites. Portanto, desligue-se! Escrever é quase um estado de meditação, ou seja, nada pode atrapalhar. Deixe os celulares de lado e explique para as pessoas que este é o seu momento, mais tarde você estará acessível.


5. Descontraia sempre
Lembre-se do que falamos sobre o estresse! Use aliados, a exemplo da música, do silêncio, idas ao parque ou da parada para o café, e descontraia-se.  Muita gente fala que a disciplina está diretamente relacionada com ficar parado, resolvendo tudo até que termine. Mas isso não é verdade, pois não somos uma máquina. Dar um “break” ajuda a relaxar, esvaziar a mente, buscar novas inspirações e ficar pronto para as linhas que vão vir. Ouvir conversas e observar as reações das pessoas também são um ótimo gatilho, aliás.


6. Converse sobre questões que o texto ou sua história abordam
Não precisa comentar a todo segundo sobre o que você está escrevendo, afinal, isso pode ser muito chato para quem ouve. Mas falar sobre os temas envolvidos e perguntar o que as pessoas acham sobre eles pode render muitas conversas interessantes, além de novas inspirações.
Por exemplo, se o livro trata de amor, pergunte o que amar significa para os seus amigos. Se fala sobre política, tente falar com quem se interessa sobre o tema e descobrir novos fatos que renderão mais ideias. Ouvir algo novo, começar uma discussão sem fim e perceber pontos de vistas diferentes vão, necessariamente, ampliar a sua narrativa, trazendo inspirações e motivações para ter disciplina.


7. Qualquer minuto e meio deve ser utilizado
Algumas pessoas reclamam que não possuem tempo livre. Mas será que isso é verdade? Pergunte-se quantas vezes você costuma ficar no celular, vendo TV ou sem fazer nada no caminho até o trabalho. Esse período todo pode ser usado!
No trânsito, há como gravar uma ideia. Se estiver apenas à disposição um celular, use aplicativos úteis para guardar os textos feitos. Caso o local seja perigoso, substitua o smartphone por um bloquinho de notas. Cada segundo pode ser útil, desde que você não o gaste fazendo outras coisas.


8. Tenha metas!
É importante definir metas de curto, médio e longo prazo, tentando alcançá-las. E não estou falando apenas de reservar uma hora por dia. Determine quantos capítulos quer ter até o mês que vem ou se deseja ter um livro pronto em um ano.

Porém, tenha em mente que sempre estabelecemos a nós mesmos metas maiores do que podemos cumprir. Então, saiba que ela é apenas um fator motivacional e não punitivo. Para incentivar, marque em um calendário o dia em que você planeja ter pronto os próximos três capítulos ou três textos. Quando visualizar a data e perceber que está chegando perto, irá se sentir cobrado e tentará manter mais a disciplina. Porém, sem se sentir frustrado, hein?


9. Não escreva sempre o mesmo
Abandonar o  projeto principal para escrever outra coisa pode parecer incongruente, mas não é. Isso porque falar sobre os mais variados assuntos nos mais diversos textos funciona bem quando você estiver cansado de fazer sempre o mesmo.

Pensar temas, tentar novas formas e navegar por territórios desconhecidos aumenta o leque de possibilidades, além de proporcionar um descanso mental. Pense que você não está parado com o projeto, apenas tentando algo novo e produzindo mesmo assim. Portanto, se estiver acostumado a fazer livros, tente fazer um conto. Se você preferencialmente narra em terceira pessoa, faça um texto usando a primeira. Fatores assim ajudam a adicionar mais elementos importantes no principal foco. Ah! E quando voltar ao principal que estava fazendo, não deixe de reler o que já fez ou os últimos capítulos para entrar no climax novamente.


10. Não se prenda à ideia original
Sabe aquela velha história de que um homem nunca bebe a água do mesmo rio, pois o rio nunca é o mesmo e o homem que bebeu a água, também não? Pois é, o mesmo ocorre com você e o que escreve. Por isso, pode acontecer de, um belo dia, você acordar e decidir mudar algum elemento principal da sua história porque acha que vai ficar melhor. Se ocorrer, não tenha receio e nem preguiça! Muitas vezes, algumas pessoas se prendem àquilo que pensaram no início, mas permitir tal fato é restringir a imaginação e deixar o trabalho nada inovador.

Assim como o leitor deve se surpreender com as novidades, o autor também deve se empolgar com elas. Pense que, se o trabalho ficar monótono, ele será, por subsequente, chato. E é impossível manter disciplina quando estamos fazendo algo de que não gostamos.

4 de março de 2016

A eternidade num pé de feijão



Algum dia você já acordou com a sensação latente da frugalidade do tempo? Uma sensação de que todos os problemas são passageiros e que, dali a pouco, não iremos mais nos deparar com eles?


Então, você olha para as pessoas em uma estação de metrô, trem, ônibus ou até de uma rua, e acontece o mais completo discernimento; todas elas vão simplesmente desaparecer. Daqui a muitos anos, ninguém que estava nesse vagão lotado continuará aqui.


Vê aquela menina? Provavelmente é a primeira vez na vida que você a avistou, mas será também a última. No entanto, vocês compartilham um pedaço de tempo próximos. Por que você está compartilhando um lapso de minutos ao lado dessa pessoa, que provavelmente nunca mais verá? Não importa e também não há no que pensar. A única certeza é que um dia ela não estará mais aqui e o leitor ou leitora também não.


Então, nesse instante de lucidez, pensamos em quantas formas há para se viver. Procuraram tanto o elixir da vida eterna, sem perceberem que apenas morremos quando todas as pessoas que se lembrarem de nós não mais forem capazes de lembrar.


E eu não estou falando da menina, que colocamos a nossa atenção. Em alguns minutos, ela não se lembrará mais de sua existência. É por isso que existem livros, músicas, danças e todas as formas de arte. Pegamos emprestado a história do outro e do mundo para podermos viver.


Por isso que Beatles pode parecer tão próximo quanto Júlio Verne. Eles estão por perto porque estamos lembrando deles quase que o tempo todo. Então, eles vivem para alguns. Mas enquanto viverem, mesmo que para um, já será o suficiente.


E os mortos também podem renascer das cinzas. Um livro escrito ao acaso após tanto tempo é capaz de revelar um autor ou história que passam a ser lembradas e, portanto, existem.


Veja que não é necessário ser Picasso. Todos os dias somos consequências dos mortos e da frugalidade que agora você sente em suas veias. Somos a reposta que nossos pais deram para o mundo, e eles são de nossos avós, e avós de bisavós e bisavós de tataravós, até que sejamos todos de uma família só.


Claro que essa reposta para a vida eterna não é o suficiente. Afinal, se pensarmos que pode existir um dia em que a população toda da terra morrerá, então quem será eterno se não há alguém para recordar? Além do mais, não há como sentir que é preciso ser eterno se não há memória.




Claro que não pensamos muito em todas essas coisas, porque a vida chama para o agora a todo o momento. Dali a segundos, os problemas voltam a ser tão imensos e intensos como uma avalanche.


O incrível é: o que nos tira dessa transe de morte e alerta para a vida e o instante não são os problemas, mas os sentimentos. Não é estranho?


Por que algo tão fugaz e passageiro é capaz de nos trazer de volta? Sentimentos. Raiva, felicidade, amor, tristeza. Qualquer um pode senti-los a qualquer hora mesmo que durante um piscar de olhos. Assim, eles estão longe de durarem para sempre em uma vida, mas perto demais de serem universais e existências. Se todos os seres humanos que existirem podem senti-los, então eles são eternos.


Talvez nada seja melhor do que a eternidade para nos acordar da própria.


Mas por que precisamos acordar? Bem, deve existir um motivo para os sentimentos desejarem que vivamos o agora. Talvez a razão seja a procriação. Uma questão biológica; não deixar que o planeta se esvazie. Para isso, também nos alimentamos e é possível gerar alimentos a partir de outros. É preciso comer arroz, frutas, peixe. Plantamos aquela muda de pé de feijão na pré-escola para entendermos que é assim que funciona a vida. E você achando que era só um pé de feijão.


E por que nos dar a capacidade de procriar e viver, gerando alimentos a partir de outros, com o objetivo de que o planeta não se esvazie? Ora, não parece óbvio? Para que todos nós possam viver para sempre. A eternidade num pé de feijão.

19 de fevereiro de 2016

Hospedeiro intermediário



Era até bonito de ver aquela vasta vegetação de guarda-chuva. Enfim algo que florescesse dentro dos prédios de São Paulo! E quanto mais água, mais desses se instalavam.

Demorei a me assustar diante de um processo nitidamente visto como natural desde os tempos em que tal apretrecho foi criado. No final do dia, eles iam desaparecendo, como a dama da noite inversa, que desabrocha de manhã e a noite se recolhe em seu refúgio.

Houve um dia então que o despertar ocorreu. Na noite anterior, me lembrava, não havia nenhum guarda-chuva. Mas no dia seguinte, que susto, um mar deles se instalara. Embora belos ao longe, quando se chegava perto era nítido que tinham virado uma praga. Todos abertos, arregalados como olhos assustados olhando na mesma direção do corredor. Era difícil passar por eles sem se sentir apequenando diante de tamanha fartura.

Em uma sala, quase tornou-se impossível entrar porque todos estavam à beira da porta, como se fossem arrebentar a qualquer hora para o corredor afora e engolir alguém desprevenido que não estivesse munido de um sobreaviso. Nesses dias todos, passei muito receosa. As pessoas, no entanto, pareciam não ver na cidade aquela voracidade.  Eles alimentavam-se de água, era mais que claro. Parasitas que começavam a se incubar em mochilas e bolsas. Quando atingiam a fase adulta, diante de grande abundância de nuvens, saiam para fora e abriam-se para o mundo, investindo pesado em corredores e qualquer espaço onde as pessoas não pisavam muito. Creio que era a desidratação quem os matava. Conforme secavam completamente, desapareciam. Mas o ciclo estava longe de terminar, já que eram recolhidos pelos mesmos hospedeiros intermediários que os haviam trazido.

Um dia, me lembro bem, deixei um desses por ali (descuido tamanho!) e meia hora depois haviam dez. A ciência com certeza deveria estudar tal forma de reprodução. Estava quase entrando em contato com a secretaria da saúde perguntando se não iriam decretar estado de calamidade pública, quando os guarda chuvas começaram a sumir. Eram sazonais, então! Março acabava e os levava embora.

Respirei com alívio. Novamente era possível circular pelos corredores. Em uma lanchonete normal, pedi um salgado qualquer. Mas o pesadelo estava longe de acabar... Olhei para o lado e novamente me assombrei: um monte de notas fiscais saiam de uma pequena máquina que não parecia capaz de cuspir tamanha quantidade de papeis.

Senti o meu braço se arrepiar, mas me mantive firme. Comi o salgado e fui jogar a embalagem dele no lixo. Dei um passo para trás. Olhei ao meu redor. O mundo seguia normalmente enquanto eu estava assombrada com a lixeira gigante. Aquela boca enorme cheia de itens descartáveis não era sazonal.  A mesma questão rondava a minha mente, enquanto guarda-chuvas coexistiam proliferando no sistema urbano: por que a praga de guada-chuvas não apareceu nos noticiários? Por que nos acostumamos tanto aos excessos?

22 de janeiro de 2016

Avenida dos Encontros


Ela estudou numa cidade vizinha. Como eu. Ela é do Ipiranga, viveu às margens plácidas. Eu, nem tanto, tortuoso, mas morei próximo das nem-tão-plácidas-e-belas margens do Tamanduateí. Ela, teatro e letras. Eu, desenho e acordes. A distância nunca foi grande em uma metrópole em que todos estão tão colados e tão indiferentes, tão juntos e tão afastados, em contato físico sem aperto de almas. Mesmo sem se conhecer, era como se já fôssemos íntimos há eras, há vidas, há várias avenidas. Eu desvio o olhar. Ela, sorriso a me encantar. Eu parado feito bobo. Ela dançante como a luz que atravessa uma queda d'água em pleno meio dia. Eu, gracejo sem talento Ela, toda a graça do momento. De graça, nem o ar da avenida.

Passos apressados. De tão paulista, é o mundo todo junto. E nem o planeta inteiro me faria distrair daquele par de olhos, daquela boca que me consome, das curvas que, feito serra litorânea, vão para lá e para cá e me jogam para onde querem sem a menor solenidade. Prudente, não me atrevo pelo Ipiranga. O tempo passa, balbuciando meses vazios, atirando para frente o inadiável. Porque não havia como não ser assim.

Forte era a atração que nos puxava. Santa era intensidade velada que levava um ao encalço do outro e outro aos braços de um. Adeodata. A Deus, a data? A data era especial. A maioridade do nosso platonismo nos arrebatava. Arremetemos tanto que finalmente arrematamos. Angariamos o que adiávamos. Numa travessa da avenida, atravessamos as nossas avenidas. E de tanto esperar, o entroncamento das vias gerou trânsito de beijos. Congestionamento de abraços.

Olhares, como motocicletas, passavam a milhão por entre os dentes, os ombros, o colo, as coxas. Os passos continuam apressados n'avenida da vida, mas a nossa rodovia segue lenta, contemplativa, regida pelo afeto e pela vontade de viver cada segundo como se o amanhã fosse apenas uma tela de Van Gogh estendida à nossa frente, iludindo os olhos com pinceladas espaçadas e firmes. Mareja os olhos. Arrepia os pelos dos braços.

Ela, Ipiranga, Jabaquara, Santa Cruz, Bela Vista, Paraíso, Jardins, República, Moema, Bom Retiro, Centro do meu viver.

15 de janeiro de 2016

Como publicar um livro no Brasil?


Eu seria muito pretensioso se dissesse que tenho a intenção de responder a pergunta do título. Se você veio aqui para saber o segredo da publicação de livros em terras tupiniquins, tenho uma péssima e uma excelente notícia: não existe uma fórmula mágica a não ser conhecer as pessoas certas. E encontrar uma editora para te publicar é, de longe, a parte mais fácil do processo, desde a escrita até a divulgação.

Pensei que escrever seria a parte mais difícil, mas eu estava redondamente enganado. Concluí a primeira versão de Cela 108 há mais de um ano e o livro só será publicado agora. Nesse intervalo, além de revisar, corrigir e registrar o texto, passei algum tempo correndo atrás de uma editora. Achei várias que aceitaram publicar, algumas até de certo renome, o que foi bastante surpreendente.

No entanto, o sistema de publicação proposto por essas empresas é o que se chama de compartilhado. Na prática, o autor tem que desembolsar uma boa quantia para dividir os custos. Dessa forma, a editora não se arrisca imprimindo um livro que pode não se mostrar bem sucedido comercialmente. Os valores variam muito e entre as propostas que me foram feitas, ficaram entre 5 e 15 mil reais.

Quem não está disposto a desembolsar uma quantia tão expressiva - até porque isso isentaria a editora da necessidade de divulgar e vender sua obra, já que ela teria ganho do próprio autor - precisa recorrer a uma forma alternativa, como as editoras que se utilizam da impressão sob demanda, pois a maior parte das grandes nem aceita originais, e as que aceitam, sempre com muita burocracia, podem levar mais de um ano para dar um parecer, normalmente negativo.

Venho aprendendo sobre o mercado editorial desde que comecei a escrever. Já estou publicando meu primeiro livro e no meio do processo de escrita e elaboração do segundo e ainda não tenho a menor ideia de qual é o melhor caminho a se seguir nesse meio. Muito antes de finalizar o texto de Cela 108, eu já havia lido muito sobre o assunto, além de ter participado de debates, palestras e encontros com escritores.

Publicar um livro sendo um autor jovem, iniciante, desconhecido e principalmente sem contatos com pessoas influentes em editoras é um caminho árduo e ingrato. Por melhor que você seja, por mais que acredite em seu texto, tenha em mente que não vão te valorizar. Pensar que uma grande editora ou um agente literário importante vai te pinçar como uma agulha em um palheiro é pura ingenuidade.

No entanto, não estou dizendo isso para desencorajar ninguém. Escrever é um dom valioso e existem diversas maneiras de ser publicado, ainda mais em tempos de internet. Há formas gratuitas e pagas, e você deve escolher a que fizer mais sentido para sua proposta. Publicar um livro apenas em formato digital é uma alternativa muito viável para quem não pode despender de valores muito altos e quer priorizar a qualidade do conteúdo, por exemplo.

Buscar um financiamento coletivo é uma possibilidade excelente para quem possui uma boa rede de contatos e pretende amplificar a divulgação da obra além de angariar fãs antes mesmo da publicação. Sistemas de autopublicação se proliferaram na web nos últimos anos e podem ajudar o autor a dar o pontapé inicial na carreira literária. As editoras também são um jeito mais tradicional de colocar seu nome no mercado editorial, mas essa nem sempre é a melhor forma de fazer isso. Tudo vai depender de quais são seus objetivos e o que você espera com a publicação de seu livro.

O importante é nunca desistir, por mais clichê que essa frase seja. Afinal começamos a escrever porque gostamos. Dinheiro, reconhecimento ou popularidade podem ou não ser consequências do trabalho duro, mas a dádiva de fantasiar universos fictícios é inerente ao autor e isso nenhum mercado injusto pode tirar de nós.

11 de dezembro de 2015

Ficar, verbo intransitivo


— Ficamos.

— Ficaram o quê, filho?

— Ficamos, ué.

— Ficaram de bem ou ficaram de mal?

— Só ficamos, pai. Só ficamos.

— Quanto estresse, garoto. Eu é que devia estar irritado, já que você não me conta o que aconteceu.

— Mas eu já disse.

— Disse o quê?

— Que nós ficamos!

— Ficaram perto? Ficaram juntos? Ficaram estranhos?

— Só ficamos.

— Na minha época, nós ficávamos alguma coisa, filho. Ficávamos de mãos dadas, ficávamos abraçados, ficávamos nos beijando. Na sua idade, eu ficava me amassando com um broto.

— Supimpa, hein.

— Não seja mal educado.

— Hoje nós só ficamos mesmo.

— E o que acontece depois?

— Não sei, pai. Vamos ficando.

— Ficando o que?

— Intransitivos.

17 de julho de 2015

O que move o artista


























Hoje deixo meu coração aberto como uma janela decorada de violetas e a porta escancarada para visitas que não esperam sair ao fim dessas linhas obsoletas. Talvez não nos falemos muito, mas quero convidar você a um passeio comigo no que te faz viver sem olhar pra trás no mundo.
Pois é verdade sim que costumamos ter muito medo do que está por vir. Não vivo dizendo isso aos quatro ventos por querer esconder um sentimento tão natural, ou com qualquer outro fim. É porque sei que o medo está feito erva daninha e que quanto mais chove coisa ruim, mais ele dá em galho, em que qualquer acerto torto faz tocar na cabeça e formar uma dorzinha aguda que só...
Assim, quando presto atenção parece que há aí o outro lado da questão. Algo que de vez em quando me ataca tal qual a vontade de comer chocolate, e eu fico ali toda doce. É aí que o danado dissipa-se com a rapidez de um sopro de vento em dente de leão. Eu deito sobre ele e digo que hoje não.
Se não me engano foi desses dias loucos que eu tirei, ao acordar, uma vontade de dançar a conquista do mundo. Pensei que era hora de pensar mais até onde jamais achei que seria capaz do pensamento mais pensante chegar. Disse que, se tanto ele havia se dado ao trabalho de me aborrecer, então, que me transtornasse logo com uma enxurrada de idéias insanas, loucas e boas. Afinal, a engrenagem é toda desse jeitinho asqueroso, desprendido de qualquer complexidade: você dá um trabalho qualquer e ela logo começa a girar até te deixar torta. Pois bem, que seja torta de felicidade e que seja saborosa.
Daí desatei o nó daquela amargura que não perdoa nem mesmo algo que caiu na hora errada, indo desaguar justo no mindinho, e decidi que aquela noite seria só minha. O que isso quer dizer talvez seja um conceito tão amplo que demore anos a ser feito e se entender. É que tudo o quanto é gente nem sempre percebe quando suga de canudinho aquela coisinha chata e abstrata. O tal medo não está dentro se não deixar que entre, é um copo cheio que pode se achar em qualquer ponto dentro dessa imensidão e a qualquer hora. Ignorá-lo é o mesmo que ter o olhar vislumbrado apenas pra aquilo que há de bom nessa existência pequena e disforme a qual damos tanta importância e a quem chamam de vida.
Talvez esse seja meu remédio de placebo travestido em otimismo fecundo em misericórdia de mim. Dentro de lá, com cautela e esmero, meu olhar, nem sempre certo, vê muito de um fogo como de Camões e, daí, me altero. Quando me pergunto do que tenho medo, venho, antes, tentando descobrir menos disso e mais daquilo outro, também chamado de "o que eu quero". Toda a gente tem medo estritamente conectado de não conseguir algo casualmente ligado ao que se quer.
Pois é logo certo, que o que se quer vem de dentro e a doideira estridente vem de fora para prevenir qualquer problema que o de dentro possa ter. Então, eu olho pra mim mesma e digo que quero escrever. Repito, para convencer, que quero muito escrever. Quero contar histórias! Mesmo que navegar por elas me dá um calafrio tão bom quanto a brisa do mar voando em um tiroteio de risos acusticamente muito bem liberados. Se penso nisso, o chatinho, a quem carinhosamente apelido de medo, passa. Afinal, não importa o meio, o fim e nem o começo. Os tropeços os faço logo a modo de adentrar nessa loucura imediata que vem perdurando por toda a minha vida e da qual não posso desgarrar.
O que perderei no meio do caminho, não se perde dentro da gana, que é a minha fama e lama. Uma questão biológica de (des)orientação própria nesse farfalho de trovões e vozes a sussurrar que é esse aqui mesmo é meu mar. Não se trata mais do que dá errado já que no fundo é só eu e o mundo. "Só" porque qualquer coisa mensurável pode ficar muito simples dependendo do tipo de outra parte, que se compare em igual ênfase e combate.
Essa tal coisa danada de que retirei até mesmo um tempo precioso para dar lhe apelido vira, então, ideia que some. Me vejo como um tigre que ataca a presa. Eu tenho a mesma fome! Não é mais preocupação por ela vai fugir, o importante é traçar um bom plano pra me encher todinho desse que apelido "sem nome". Desse modo, penso que de tal e arriscada maneira, se a presa não der certo, outra será agarrada. Pois bem se sabe que funciona na natureza exatamente deste modo primitivo e tão natural, que pra ser cativo precisa do correr certo dos tempos e das vontades. Se não entende, vislumbre pela maneira seguinte; de que a caça é a palavra que some.
Mesmo que seja e que tudo acabe, a paixão ainda está lá, porque ela não é bicho que se mata ou morre fácil. Na verdade, ela é a floresta inteira, me sustenta da mesma sensação que o sol vem cair de mansinho - de jeito que hidrata até mesmo a cuca mais rachada. Desde então, acaba-se. Sou a paixão que circula nas veias e, por ela, com ela, sobrevivo. Sem ela, morro todos os dias. Sem a divagação da ideia, sem o "sem nome" eu não sou ninguém, sem nada.
Quando percebo tudo o que lhe digo, o primeiro apelido tosco vai se'embora. Caso não se permita dar certo, eu ainda estarei caçando o alimento porque é dessa indispensabilidade que vivo. Como se fosse a cabeça. Não pode ser tirada de mim, pois, bem ou mal, sem ela não sou nada além do que posso vir a ser. Ser só a gente também é algo meio condoído e simplório. Nessas horas é que se vê mover mundos e fundos pra tentar soltar uma gota do mar de tudo que te transborda. O prazer é imenso e grande. E quando ele vem... Ah! Quando ele vem é um balde que inunda tudo que teus olhos podem correr, as criaturas e cada área de teu ser.
Quando ele vem as mãos se eletrizam, o sangue pulsa rápido e a respiração, ofegante, percebe que já estava desde que nasceu. Quando ele vem, desligo do mundo pra tentar entrar minimamente. Quando ele vem, não entendo nada de mim para, dessa forma, tentar entender o mundo e todas as pessoas de uma só vez e gota, e mar. Quando ele vem, é como o universo e o explorador. Quando ele vem é encantador e tão forte que traz vida ao mais moribundo dos seres inativos e das dobras dos cérebro mais empoeiradas.
Quando ele vem, move e causa tanto alarde que é necessário jogar pra fora, nem contar meia verdade ou entender só metade. Quando ele vem é pra entender o quanto de cada quantidade tem aquilo que ali está, mesmo sendo impossível contar. Não é nada mais complexo do que isso. Seja esse o tal do sentimento que se diz, e muito bem o seja dito, e que tanto falam. É com certeza isso que vai na alma de todo e qualquer artista.

12 de julho de 2015

O que eu sou ainda não tem nome


O universo é uma máquina de reciclagem. A cada cinco anos, o corpo substitui todos os seus átomos, sendo que um ser humano tem mais destes do que a Via Láctea tem estrelas. Em média, eu possuo alguns milhões de átomos que já pertenceram a cada pessoa que viveu antes de mim. Gandhi, Buda, Aristóteles, Asimov, John Lennon fazem parte dessa carapaça de carbono e água que serve como suporte para que meu ser imprima sua existência nesse universo.

A essência de todos os seres parece singular e única, como um lampejo em meio à escuridão. Vejo-me a princípio como um intervalo no tempo e no espaço. Sou, no entanto, composto por tantos, nas células, na psique e na língua, que me delimitar em um “eu” e ignorar o cosmos seria ingenuidade. Sou um misto da coletividade que me precede? Se não posso dizer que sou nem mesmo meu próprio receptáculo, o que eu poderia ser? Um conjunto de impulsos em um cérebro ou algum tipo de energia envolta em mistério? Sou nós todos, que também somos eu.

Assim como uma cachoeira tem sua água renovada a todo instante, o ser rompe com a embalagem para se revolucionar constantemente. Não há um invólucro que possa reter os espasmos de um ser em sua plenitude. A linguagem é a única maneira de superar a ausência de sentido da existência. Dá-se nomes, significados e objetivos.

A nomeação falha na tarefa de dar conta desse "eu" que me escapa por entre os dedos quando tento me apanhar em uma ideia. Avanço para além dos limites de meu corpo em decomposição. Desde que nasci, estou em um processo de putrefação que não pode ser evitado, apenas adiado. Faço as vezes de uma máquina de morrer. O que posso fazer para apreender minha existência é traduzí-la em tentativas de linguagem, por mais que esse exercício possa se desmanchar no ar devido à fragilidade.

Não há na língua portuguesa construção que permita expressar ou definir o ser simultaneamente em sua singularidade e em sua coletividade. O cosmos é um todo composto por várias partes interligadas entre si, de modo que não se pode dissociar um e outro. Somos um só à medida em que cada qual é um fragmento ao mesmo tempo em que não precisa de complemento.

Se compartilho dos mesmos átomos, do inconsciente coletivo, do éter universal, o que me resta para corroborar a singularidade é a linguagem, que define o mundo e a maneira pela qual existo nele. Crio e extinguo as barreiras da existência por meio não só da palavra mas de toda a expressão que se possa criar com ela. O que sou me escapa por um fio de pensamento, foge da vista e volta como o ser em sua complexidade, sem ser apreendido por signos alfabéticos sobre o papel.

Eu tento me capturar na língua, mas me encontro fora das palavras, meio que no espaço entre uma letra e outra, sob os pingos dos is. Meu ser se delineia por entre as fronteiras desse espaço chamado linguagem. Parafraseando Clarice, diria que André é pouco. O que eu sou ainda não tem nome.

21 de abril de 2015

Tempo aproveitado, tempo desperdiçado


No princípio criou Deus o ócio. A atividade mais produtiva de que se tem notícia é uma boa tarde de nada. Se o capitalismo tivesse alguma ponta de racionalidade, os proletários seriam pagos para não fazer nada. Eu não fazia nada quando esse fato me ocorreu. É no tudo que reside o caos. O nada é a última morada do espírito, o subúrbio da existência. O que somos nós quando não estamos sendo? Lá vinha eu caminhando pelas quebradas estreitas dessa favela, do alto dos altos e baixos dessa intransitividade que sou, quando me deparo com um trânsito desconcertante.

O deslocamento não tinha dimensões colossais, mas o fluxo intenso de carros fazia com que a viagem levasse mais tempo que o planejado. No interior do veículo, meus pais e eu dividíamos o ar a ser respirado, muito mais do que suficiente para os três. Tudo parecia bem, o rádio exprimia sons suaves, cujos compassos imprimiam em mim uma profunda sensação de bem estar. Meu ser estava completo naquela situação, e não havia nada mais a se fazer.


8 de abril de 2015

E se o mundo pudesse falar?


Por Bruna Meneguetti

Imagine que o mundo possa falar. Na verdade ele pode, apenas nunca quis dizer nada. Parece que certa vez ele realmente sentiu tal necessidade, mas ainda não havia ser algum que pudesse escutá-lo. Então, o mundo fez com que nós surgíssemos e desde então ficou mudo. O que ele tem a falar não é mais bonito do que o silêncio que ele pode nos proporcionar. 

29 de março de 2015

O teocídio



Eu cometi um teocídio. Não adianta me denunciar, o crime já prescreveu. Matar um deus sem posse de arma de fogo mediante pensamento racional e senso crítico pode não ser dos crimes mais hediondos, mas é dos mais comuns desde os tempos de Nietzsche. Não pergunte, eu não me lembro como foi. O matei aos poucos, como uma criança que esquarteja o amigo imaginário ou o Papai Noel, membro após membro. A propósito, vamos por partes.

16 de março de 2015

Por que temos medo do escuro? - Um cenário das manisfestações

Por: André Cáceres e Bruna Meneguetti


Impeachment e corrupção foram as principais pautas na manifestação do dia 15, este domingo. Pensar em seus múltiplos aspectos podem levar a entender porque muitos a apoiam e porque muitos são contra. Da parte daqueles que não estão ao lado desses movimentos, acredita-se que há certo medo do escuro, apesar de não vivermos em claridade plena e nem termos total escuridão hoje em dia. Isso é uma referência à ditadura, claro. Porque no escuro dela, pessoas que expunham qualquer opinião eram simplesmente massacradas e muitas vezes mortas. No escuro, sempre aconteceu muito mais do que no breu, penumbra ou luz focal de uma lanterna segurada por quem controlava e ainda controla, por vezes, as opiniões.

2 de março de 2015

Carta endereçada a minha querida Spes

Olá, Spes.

Percebi, ao acordar, que você estava usando um vestido branco e dourado ontem a noite. Aonde foi tão bela? Bem, se todos soubessem o quanto um vestido causaria. Mas você, obviamente, não sabia. Você apenas o colocou. Eu sabia do que ele seria capaz. Em mim, claro.
E eu fico aqui pensando, - parado e sentado nessa poltrona, enquanto vejo um belo programa de TV - que o mundo, de repente poderia acordar de outra cor também. Você diz para mim que, na foto, está em preto e azul. Percebo que chegamos a discutir. Spes, isso não se trata de um vestido.

Como quando eu fui até a padaria e vi uma notícia sobre mulheres que estavam sendo ameaçadas por falarem as suas ideias feministas para o público da internet. Você pode ver, Spes, que não é o vestido. O buraco é muito maior e a genética deve ter alterado muito mais do que as percepções de cores no olhar humano.

20 de fevereiro de 2015

O funcionário do mês


Bernardo ainda sonhava com uma praia paradisíaca sob o sol escaldante quando o ruído infernal de seu despertador cumpriu o serviço que lhe foi encarregado. Ele não praguejou, pois sempre aprendeu a cumprir suas obrigações de cidadão sem reclamar. O sol agraciava a janela com sua luz matutina. Observou os quadros de "funcionário do mês" na parede, formando um mosaico previsível e sem sobressaltos, exatamente como era sua vida. O quarto arrumado, asseado, organizado e exemplar era um verdadeiro retrato de sua rotina.

Alinhou-se, pegou a pasta e partiu em busca do título de funcionário do mês de fevereiro. Faturou o prêmio nos últimos 42 meses e estava decidido a ganhar novamente. O elogio sutilmente debochado de seu patrão era o que alimentava sua alma. O cobiçado reconhecimento como o número 0186329, o que mais rendia lucros para a empresa, era a cenoura na ponta da vara para aquele burro de carga que corria desesperadamente mês após mês atrás de suas valiosas comissões.

Bernardo era o melhor corretor de imóveis da cidade, quiçá de todo o universo conhecido. Nenhuma coordenada possível do tempo-espaço possuía um profissional tão qualificado como ele. Gel no cabelo, camisa engomada, gravata amarrada, rosto lavado. Bernardo saiu de casa em sua religiosa peregrinação diária à Meca do proletariado, sem nem olhar para o lado. Não notou o tapume que havia aparecido, vizinho à sua casa, muito menos o canteiro de obras que se instalara no local. Nem teria interesse ou curiosidade para tanto, pois deveria chegar pontualmente às 10 horas no escritório.

Escreve, rabisca, grampeia, atende, telefona, marca, cumpre, planeja, relata, digita, calcula, acerta. Não assina. Quem assina é o patrão. Volta para o dormitório, às vezes conhecido como residência. O prédio ao lado brilhava como novo, imponente, erguendo-se muitos metros acima da cabeça de Bernardo, que nem tinha consciência dele.

A praia voltava como uma maré que subia em seu inconsciente, mas o alarme o puxara de volta à realidade. O sol já não tocava sua casa, coberta pela sombra do magnífico edifício envidraçado, que pulsava como um coração jovem. Bernardo seguiu seu código disciplinar à risca para se arrumar e partir novamente em sua pateticamente emocionante jornada rotineira.

Desviou, apressado, de um novo canteiro de obras no caminho. O relógio, assim como Bernardo, continuava seu ciclo, aproximando o ponteiro menor das 10 horas enquanto ele se aproximava do escritório. Em seu crachá, o número 0186329. Escrevinhou, ligou, agendou, teclou, obedeceu, estacou. O novo quadro de funcionário do mês foi pendurado. Apenas Bernardo correu para ver o detentor da glória, que, previsivelmente, era ele mesmo mais uma vez.

Foi até a sala do chefe para receber as congratulações de praxe que tanto o sensibilizavam. Ao fim do expediente, pegou o retrato para levar embora. Metódico, tinha de colocar em sua parede para alimentar o mosaico. Percorreu o caminho de volta apressado, carregando o prêmio nos braços. No entanto, sua rotina foi finalmente quebrada quando ele se deparou com um enorme prédio em frente à sua casa. O empreendimento tinha 50 apartamentos, dos quais metade ele próprio havia vendido.

Pela primeira vez em anos, abriu os olhos para algo diferente. Não tinha como chegar em casa para pendurar seu quadro. Ficou parado, sem saber o que fazer. Algo inédito aconteceu: ele abarrotou a camisa. Por uma boa causa, entretanto. Pulou o muro do único terreno baldio que havia ao lado de onde morava, aventurou-se pelo mato e, por fim, alcançou sua residência, no meio do quarteirão.

Gozou dos louros da vitória enquanto posicionava o 43º retrato em sua parede. Apesar do barulho de homens trabalhando, ele adormeceu contente com sua façanha. Mas sua felicidade, ou o que ele achava que era, não duraria muito tempo. Logo surgiu a imagem do mar ao pôr do sol, com as ondas batendo em rochas esculpidas pela água cristalina. Os pés de Bernardo estavam sujos de areia enquanto ele observava sereno as gaivotas que pousavam nas pedras. As aves alçaram voo assim que o despertador distribuiu sua fúria em acordes dissonantes que trouxeram o funcionário do mês de volta à sua casa.

Mais uma vez, cumpriu os afazeres matutinos para se preparar para mais um dia de trabalho. Penteou o cabelo, passou a camisa, fez o nó de sua gravata, pegou a sagrada pasta de cima da mesa e estava prestes a sair quando se lembrou que não havia como passar pelo prédio que se impunha entre a porta da sala e a calçada. Quando tentou pular o muro do terreno ao lado, descobriu um gigantesco empreendimento que bloqueava seu caminho. Ele estava rodeado, sem escapatória.

O relógio, diferente de Bernardo, continuava sua trajetória, impiedoso, apenas saboreando a imagem daquele homem desesperado e, pela primeira vez na sua vida, atrasado. Para todos os lados que ele olhava, um enorme prédio se erguia, impedindo sua passagem.

A respiração, ofegante, já era audível à distância. Cada vez que o homem arfava, sua face, cujos músculos, tensionados, compunham a figura horripilante de um ser perturbado, demonstrava mais agitação. Secou o suor que escorria pela testa. Imagens terríveis se sobrepunham em sua mente de forma caótica. Saiu correndo na direção oposta aos edifícios. Pulou tapumes de construção, passou por operários que levavam sacos de cimento para criar mais uma torre. Não sabia muito bem onde se encontrava, mas um pensamento insistente martelou sua cabeça até desaguar em palavras que saíram rastejantes de sua boca.

-Eles estão vindo. - murmurou, os olhos arregalados fitando seu interlocutor desconhecido. - Eles estão vindo me pegar!

-Quem está vindo, Bernardo? - falou uma voz firme e segura, que abria caminho por entre os ruídos conflitantes de sua mente. O desconhecido vestia um sobretudo, óculos escuros e um chapéu, que ocultavam sua face

-Todos! Todos eles! - levou as mãos à cabeça em um gesto de autoproteção. - Vão levar meus quadros embora! Vou me atrasar e não vão mais elogiar meu trabalho!

-E para quê você quer isso? Esse reconhecimento realmente muda algo em sua vida? Você está apenas servindo aos interesses de seu chefe, engrossando suas cifras enquanto se contenta com palavras falsas e ardilosas que não levam a lugar algum.

-Quem é você para dizer isso?

-Eu sou você. - respondeu, tirando o chapéu e os óculos para revelar a identidade. Seu rosto era exatamente idêntico ao de Bernardo. Ele assustou-se com a visão e ficou paralisado ao ver a semelhança. Era como se estivesse olhando para um espelho. O desconhecido, no entanto, não tinha o cabelo arrumado dele, nem suas roupas alinhadas, tampouco o olhar perdido e as pálpebras caídas. Ele tinha um aspecto jovial e esbanjava vivacidade com suas vestes despojadas e aparência confiante, muito diferente da expressão monótona de Bernardo. A figura desapareceu diante de seus olhos e ele pôde enxergar uma porta no muro de trás de sua casa.

Talvez nunca tivesse reparado nela, suja e mal cuidada, escondida em um canto. Dirigiu-se a ela, girou a maçaneta e deparou-se com uma trilha em meio aos prédios que não paravam de crescer. Bernardo não aguentava mais aquela visão. Sabia que tinha de chegar ao escritório para vender mais e mais apartamentos. Tinha metas a bater. Ele não podia perder o posto de funcionário do mês. Mas algo dentro de si parecia ter se libertado. Uma força misteriosa que buscava felicidade em sua forma mais pura e primitiva.

Ele sentia sua alma agitada com a porta que descobrira nos fundos de casa. Talvez estivesse desejando aquilo desde o instante em que começara sua empreitada pelo título que cobiçou nos últimos 43 meses. Mais um prédio estava levantado ao lado da porta e sua própria casa se tornara um canteiro de obras. Em breve, ele não teria mais nem sua parede cheia de retratos. Tudo o que ele prezava estava sendo tomado pelas empreiteiras que ganhavam dinheiro às custas de seu trabalho. Ele engoliu em seco.

Disparou pelo caminho até encontrar uma praia deserta, cujas rochas eram talhadas pela força das ondas e os pássaros revoavam cantando a tarde inteira. Bernardo olhou para trás e viu a cidade, sempre crescendo, abrindo espaço para novos arranha-céus que escalavam a paisagem. Afrouxou a gravata. Descalçou os sapatos finos e abriu os botões da camisa. Deixou a maleta cair sobre a areia. Longe dali, o número 0186329 já havia sido substituído pelo mais novo prodígio da corretagem de imóveis.

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