26 de maio de 2016

Como conseguir disciplina para escrever?



Sabe aquela sensação chata quando o dia acaba e você não escreveu nada? Para ser sincero, não conseguimos entender como o relógio pode avançar tão rápido! Mas isso não é um problema só seu, acredite.


A solução é o que todos nós precisamos diariamente na vida: uma boa dose de disciplina. Por isso, reuni 10 dicas que ajudaram a me colocar nos eixos. Elas foram criadas por mim ao ir testando e vendo o que dava ou não certo. Hoje, acabo de terminar um livro de aproximadamente 500 páginas seguindo essas principais regras. Foi aí que pensei sobre como elas poderiam ser úteis também para outras pessoas. No final do dia, desejo que você tenha conseguido alcançar o melhor de si ao escrever! Se tiver dicas também, não deixe de compartilhar com a Coruja. Afinal, ajuda é sempre bem-vinda! Mas agora vamos lá:


1. Tenha um fã (ou vários)
Convide alguém com disponibilidade e que, de preferência, ame ler o gênero que você escreve. Vale de tudo: mãe, pai, tia, namorado, professor, um bom amigo. É para essa pessoa que os capítulos ou textos serão mandados assim que você terminá-los.
Mas lembre-se: ela não precisa ser especialista em português ou histórias. É claro que se for, melhor ainda. Porém, o objetivo principal é ter uma cobrança exterior impulsionando você. Afinal, todo autor quer ser lido, certo? É muito empolgante ver as reações de um leitor ao longo da história (conversas com eles e saber suas expectativas pode, inclusive, dar novas ideias), e é esse sentimento e a curiosidade pelas próximas palavras que poderão ajudá-lo muito a estabelecer uma disciplina. Afinal de contas, agora não dá mais para desanimar e deixar uma dívida com o mais novo fã.


2. Use os momentos mais produtivos do dia
Tem gente que possui um pico maior de energia à noite; outros, à tarde. Algumas pessoas precisam dormir menos e outras, mais. Por isso, é importante conhecer comportamentos pessoais e tentar usá-los a seu favor! Porém, se você for do tipo que é mais produtivo de manhã e só tem tempo à noite, procure rascunhar em um mesmo horário sempre, mesmo que não saia nada. Desse jeito, o hábito vai sendo criado.
Não se esqueça de que, assim como existem períodos melhores, há dias mais produtivos também. Por exemplo, muita gente não trabalha nos finais de semana, então é bom usar o sábado e o domingo. O importante é não se pressionar, porque se existe algo louco para travar a nossa criatividade, esse algo é o estresse.


3. Persista!
As primeiras tentativas podem ser um pouco frustradas. Mesmo se nada estiver dando certo, imponha-se uma regra de escrever ao menos uma hora por dia.  Em algumas vezes, pode acontecer de você ficar olhando para a tela, escrevendo e apagando, escrevendo e apagando. Se, depois dessa tentativa, nada sair, faça uma pausa.

Mas, na maioria das vezes, esse é o período suficiente para entrar totalmente no mundo da fantasia e ter alguma ideia. Nesse estágio, faça um rascunho com tópicos do que vai acontecer ou o que será abordado, pense também em formas diferentes de narrar o que imaginou. Mesmo se odiar o que acabou de fazer, não desista antes de completar uma hora no relógio.


4. A atividade não deve envolver outras
Não adianta nada separar uma parte do dia, usar os momentos mais produtivos e ter alguém incentivando se você ficar olhando conversas, redes sociais e sites. Portanto, desligue-se! Escrever é quase um estado de meditação, ou seja, nada pode atrapalhar. Deixe os celulares de lado e explique para as pessoas que este é o seu momento, mais tarde você estará acessível.


5. Descontraia sempre
Lembre-se do que falamos sobre o estresse! Use aliados, a exemplo da música, do silêncio, idas ao parque ou da parada para o café, e descontraia-se.  Muita gente fala que a disciplina está diretamente relacionada com ficar parado, resolvendo tudo até que termine. Mas isso não é verdade, pois não somos uma máquina. Dar um “break” ajuda a relaxar, esvaziar a mente, buscar novas inspirações e ficar pronto para as linhas que vão vir. Ouvir conversas e observar as reações das pessoas também são um ótimo gatilho, aliás.


6. Converse sobre questões que o texto ou sua história abordam
Não precisa comentar a todo segundo sobre o que você está escrevendo, afinal, isso pode ser muito chato para quem ouve. Mas falar sobre os temas envolvidos e perguntar o que as pessoas acham sobre eles pode render muitas conversas interessantes, além de novas inspirações.
Por exemplo, se o livro trata de amor, pergunte o que amar significa para os seus amigos. Se fala sobre política, tente falar com quem se interessa sobre o tema e descobrir novos fatos que renderão mais ideias. Ouvir algo novo, começar uma discussão sem fim e perceber pontos de vistas diferentes vão, necessariamente, ampliar a sua narrativa, trazendo inspirações e motivações para ter disciplina.


7. Qualquer minuto e meio deve ser utilizado
Algumas pessoas reclamam que não possuem tempo livre. Mas será que isso é verdade? Pergunte-se quantas vezes você costuma ficar no celular, vendo TV ou sem fazer nada no caminho até o trabalho. Esse período todo pode ser usado!
No trânsito, há como gravar uma ideia. Se estiver apenas à disposição um celular, use aplicativos úteis para guardar os textos feitos. Caso o local seja perigoso, substitua o smartphone por um bloquinho de notas. Cada segundo pode ser útil, desde que você não o gaste fazendo outras coisas.


8. Tenha metas!
É importante definir metas de curto, médio e longo prazo, tentando alcançá-las. E não estou falando apenas de reservar uma hora por dia. Determine quantos capítulos quer ter até o mês que vem ou se deseja ter um livro pronto em um ano.

Porém, tenha em mente que sempre estabelecemos a nós mesmos metas maiores do que podemos cumprir. Então, saiba que ela é apenas um fator motivacional e não punitivo. Para incentivar, marque em um calendário o dia em que você planeja ter pronto os próximos três capítulos ou três textos. Quando visualizar a data e perceber que está chegando perto, irá se sentir cobrado e tentará manter mais a disciplina. Porém, sem se sentir frustrado, hein?


9. Não escreva sempre o mesmo
Abandonar o  projeto principal para escrever outra coisa pode parecer incongruente, mas não é. Isso porque falar sobre os mais variados assuntos nos mais diversos textos funciona bem quando você estiver cansado de fazer sempre o mesmo.

Pensar temas, tentar novas formas e navegar por territórios desconhecidos aumenta o leque de possibilidades, além de proporcionar um descanso mental. Pense que você não está parado com o projeto, apenas tentando algo novo e produzindo mesmo assim. Portanto, se estiver acostumado a fazer livros, tente fazer um conto. Se você preferencialmente narra em terceira pessoa, faça um texto usando a primeira. Fatores assim ajudam a adicionar mais elementos importantes no principal foco. Ah! E quando voltar ao principal que estava fazendo, não deixe de reler o que já fez ou os últimos capítulos para entrar no climax novamente.


10. Não se prenda à ideia original
Sabe aquela velha história de que um homem nunca bebe a água do mesmo rio, pois o rio nunca é o mesmo e o homem que bebeu a água, também não? Pois é, o mesmo ocorre com você e o que escreve. Por isso, pode acontecer de, um belo dia, você acordar e decidir mudar algum elemento principal da sua história porque acha que vai ficar melhor. Se ocorrer, não tenha receio e nem preguiça! Muitas vezes, algumas pessoas se prendem àquilo que pensaram no início, mas permitir tal fato é restringir a imaginação e deixar o trabalho nada inovador.

Assim como o leitor deve se surpreender com as novidades, o autor também deve se empolgar com elas. Pense que, se o trabalho ficar monótono, ele será, por subsequente, chato. E é impossível manter disciplina quando estamos fazendo algo de que não gostamos.

8 de abril de 2016

O clube do abuso




─ Aaaaah!
─ Aaaaaaaah
─ Ah aaaah!
Que lugar estranho”, Felícia pensou, “mal acabo de chegar e vejo 5 pessoas em uma roda gritando como se sentissem dor”. De fato, aquele lugar era totalmente novo para a bela garota de trança no cabelo e vestido rodado exaltado de flor. As nuvens mexiam-se depressa, quase correndo. Atrás do grupo estranho estava um castelo muito grande, onde se podia chegar subindo um morro.
Felícia observava o grupo de longe, detrás de uma árvore. Imaginou se seria o caso de ir até o castelo e passar por eles sem cumprimentar ou ser era melhor ser educada. Porém, cansada de esperar, saiu da árvore e começou a caminhar. Obviamente, o grupo continuava a gritar e só parou quando Felícia, estando muito perto, disse um agradável “Olá”.
─ Olá, menina bonita. Veio nos prestigiar? ─ Uma mulher falou, sem dar tempo para a menina responder. ─ Não deseja entrar no nosso clube? Estamos a gritar. ─ Ela puxou Felícia delicadamente pela mão e esta não ousou falar. ─ Eu sou a Professora, vejo que se comporta muito bem. Desejaria que muitos dos meus alunos assim o fizessem também.
─ Prazer em conhecer todos vocês. ─ Felícia tornou educada. Desejava apenas ir ao castelo sem ser interrompida. ─ Você é professora do quê?
─ Eu sou a Professora. Ensino bons modos. Diga-me, você gosta mais de correr e pular ou ficar sentada e de me ouvir falar? ─ A mulher indagou.
─ Ora, gosto mais de correr e pular. ─ Felícia sorriu.
─ Pois deveria preferir sentar e ouvir! ─ A mulher a repreendeu, tocando em seu ombro e fazendo com que Felícia sentasse.
Mais uma vez, Felícia olhou para o castelo, parecia ainda mais belo agora que ela não poderia ir até lá tão rapidamente. Olhando para o resto das pessoas, ela perguntou:
─ O que esse clube faz?
Um homem respondeu todo risonho.
─ Somos o clube do abuso! Estamos treinando o abusar.
“Que coisa mais estranha”, Felícia tornou a pensar.
─ E isso é bom?
O homem explodiu em gargalhadas diante daquela pergunta.
─ É claro que é! Ajudamos a manter a ordem. Se as pessoas pudessem fazer o tempo todo o que elas desejassem, o mundo seria um caos. Certo?
─ Entendo. ─ Felícia concordou. ─ E por que gritar?
─ Gritamos para nos sentir mais poderosos. Tente você também!
─ Está bem, posso tentar. Porém, antes, quem é você? ─ Felícia torceu as sobrancelhas.
─ Quem sou eu? Ora, eu sou o Familiar. Fique para nosso almoço e comece a gritar! Aaaaah! ─ O Familiar falou.
Todos os cinco começaram a gritar. Felícia olhou para o castelo, sem saber como dizer que desejava ir para lá.
─ Vamos! ─ O Familiar tornou a falar. ─ Eu sei o que é melhor para o seu futuro. Ou você não confia em mim que sou tão familiar?
Felícia se engasgou diante daquela frase. Deu uma nova olhada para o castelo, mas começou a gritar.
─ Aaaaaaah! Aaaaaah! ─ Felícia notou que todos os cinco gritavam e parou. ─ Não me sinto muito bem.
─ Ah! É sempre assim no começo. ─ Outra mulher respondeu. ─ Você tem muitos compromissos comigo.
─ E quem é você? ─ Felícia tornou a perguntar, notando que havia mais duas pessoas ali que ainda não haviam se apresentado.
─ Eu sou o Desconhecido.
─ Mas isso não é nome de homem? ─ Felícia olhou com curiosidade para a mulher.
─ Ora, tão pequena e já tão abusadora! ─ A mulher chamada Desconhecido riu-se. ─ Pois saiba que sou muito essencial.
─ Mas como, se nem a conheço? ─ Felícia tentou se levantar. Queria muito sair de lá.
─ É por isso mesmo que sou tão poderosa. As pessoas têm medo de mim. Afinal, nada pior do que imaginar o que o Desconhecido irá pensar! Ah, sim! Desconhecido é bem pior do que o Familiar!
A mulher Desconhecido tornou a calar.
─ Entendo. ─ Diante dessa frase e silêncio, Felícia sentiu medo. Desconhecido não era muito dada a apresentações e nada mais falou. Por isso mesmo, era tão fácil temê-la. O que ela estaria pensando sobre o fato de Felícia não querer gritar?
Tentando mudar de pensamento, Felícia olhou para o penúltimo integrante do clube do abuso.
─ E quem é você?
─ Eu sou o Amor. ─ O homem disse todo inflado.
─ E o Amor também pode entrar nesse clube? ─ Felícia assustou-se.
─ Claro que sim! Fui um dos primeiros a entrar. ─ O Amor riu. ─ Eu abuso porque amo! Não é culpa minha que as pessoas se deixem abusar por mim. Que tal, agora? Sente-se melhor para gritar? Aaaaaaah! ─ O Amor gritou. ─ Vamos, grite também! Ou você não me ama?
Felícia pensou. Ora, é claro que amava o Amor.
─ Mas o amor não deveria abusar. ─ Ela imaginou e falou, sem querer em voz alta.
─ Ah, mas até o Amor pode trazer sentimentos ruins. Todos podemos errar. São os outros que não podem abusar. Eu amo e sou amado por você, então tenho esse direito. Vamos, grite!
─ Já grito. Deixe-me ao menos ser apresentada à última pessoa dessa roda. Afinal, a Professora me ensinou a ter educação. ─ Felícia piscou para a Professora, que sorriu orgulhosa. Logo depois ela olhou o castelo. Quanto tempo mais aquilo iria durar?
─ Eu sou a Chefe. ─ A última mulher falou.
─ Chefe de quem? ─ Felícia questionou.
─ Chefe de tudo! ─ A Chefe sorriu.
─ Você é chefe de mim? ─ Felícia não estava entendendo mais nada.
─ Claro que sim. Por isso digo que você deve gritar, não há porque parar o trabalho. ─ A Chefe olhou profundamente para os olhos da menina. ─ Ou você não quer crescer e se tornar uma profissional ainda melhor?
─ Melhor no quê? ─ Felícia se sentia cada vez mais estranha ali.
─ Ora, melhor em se abusar! ─ A Chefe esperava a reação de Felícia, que olhava para os cinco sem perceber quem eram verdadeiramente. ─ Por que você acha que entrou nesse clube do abuso?
─ Eu não entrei por que quis. ─ Felícia balbuciou. ─ Na verdade, eu estava indo para o castelo e vocês me fizeram ficar.
─ E prova maior não há de que é você a maior abusadora do clube do abuso! ─ A Chefe gargalhou. ─ Viu só, acabei de te fazer subir no cargo.
─ Mas eu não queria esse emprego! ─ Felícia sentia as lágrimas brotarem em seus olhos. ─ Estou sendo abusada por vocês! Não sou uma abusadora… Não deveria estar nesse clube.
─ Felícia, estamos abusando de você porque foi você primeiro quem se deixou abusar. É a máxima regra do clube do abuso; só entra e é abusado, quem está se abusando. ─ A Chefe sorriu. ─ Sei disso porque sou a sua chefe. Fico olhando tudo o que não deveria pensar e todas as vontades que sente e não deveria ter. Sei, por exemplo, que deseja ir ao castelo, e não ficar aqui. Mas lhe digo que precisa ser educada.
Vendo que a menina nada falava, a Chefe sorriu.
─ Olha, se isso te deixa feliz, vou nomeá-la a rainha do abuso!
─ Não quero ser a rainha do abuso! ─ Felícia chorava. ─ Não quero ser abusada e nem me abusar. Estou indo embora!
Felícia saiu correndo o mais rápido que pôde do grupo. Enquanto corria, podia ouvir o clube do abuso gritar. Eles eram bons nisso, pois haviam treinado a vida inteira:
─ Você vai perder o cargo que todos sonhavam, Felíciaaaa! ─ A Chefe gritou.
─ Onde estava todo amor que você disse sentir por mim?? ─ O Amor gritou.
─ O que os outros vão pensar quando você contar que saiu do clube? ─ Gritou a moça Desconhecido.
─ Mas nós crescemos juntos e você nunca duvidou de mim! ─ Argumentou o Familiar, aos berros.
─ Não foi assim que você foi ensinada! ─ A Professora insistiu enquanto a saliva pulava de sua boca.
Mas os gritos foram, aos poucos sumindo. O coração de Felícia foi se enchendo de paz. Quando chegou perto do castelo, notou que ele era ainda mais lindo do que imaginou. Ao abrir a porta, acordou.


O texto “Clube do abuso” foi inspirado após a apuração da matéria “Amiga, você está em um relacionamento abusivo”.

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