6 de outubro de 2016

Tinha certeza de que seus olhos eram verdes



Verdes como esmeralda, verdes como um mar calmo num dia de sol, verdes como a grama bem molhada. Agora eu os vejo castanhos e fico em pânico. Como posso ter me enganado tanto? Mal a conheço e acabo de descobrir que a conheço pior do que imaginava. Mas a gente se engana com as coisas invisíveis e não com as visíveis. A menos que se esteja cego em todos os sentidos...  E eu estava cega todos esses dias quando a vi com seus olhos verdes que não estão mais aí. O mais curioso é que sempre os achei lindos! Pensava: que lindos olhos verdes aquela moça tem. Fiquei refletindo por minutos como eu fui ver olhos verdes no lugar dos seus. Nesse quesito não costumo me enganar, eles são a janela da alma. E é como se eu visse a sacada de um apartamento onde, na verdade, é uma casa.

Pensei que poderia ser uma questão espiritual. Por que verdes? Me diga qual é essa camada estranha que nos impede de perceber os outros, sentir suas dores, seus amores, entender que é gente como a gente não importa se são olhos de esmeralda ou chocolate. Você e esse verde que agora procuro insistentemente, como se estivesse mentindo para mim, e justo agora que estamos frente a frente! Como pôde fazer isso para me presentear com esses novos olhos? Não me sinto digna do castanho deles. Cultuei o verde como se ele fosse algo irrefutável. Fiz um altar, o cumprimentei, percebi sua presença antes de você chegar. O verde acenou para mim. Mas agora o castanho me chama à realidade. Seu rosto muda. É como se a minha máscara caísse ao perceber que o verde não está aí, que ele não vai voltar. Que o verde que vi é outra coisa…

Seu verde me lembra ausência e ele é a materialização da própria. Seu verde é despedida. É choro e também saudades. Seu verde é amor, seu verde é intocável. Quero conhecer a verdade por trás do verde que nunca existiu. Quero que me conte quem é e porque escolheu mentir sobre o verde. Quero que me diga porque acha que o verde a escolheu. Não me leve tão a sério. Eu não sei nada sobre você, apenas que tinha um verde que a seguia e que, um belo dia, parou. Eu também tinha olhos verdes que me seguiam, sabe? Seu verde é o mesmo daquela que amei. Que aconteceu? Não sei bem, mas me lembram seus olhos. Eram verdes até que simplesmente deixaram de ser. O que eu via, então, era apenas o reflexo dos meus. O que me diz? Seus olhos são mesmo verdes! Ah, é a luz...  Ah, é a sala e as paredes…  Ah, é que vai chover e aí eles ficam mais cheios de barro…

Engraçado. Há um minuto eu poderia jurar que eram castanhos. Como pode existir tanto verde no seu castanho, tanto castanho no seu verde? Já lhe disseram que seus olhos são lindos? Nunca vi nenhum mudar de cor assim. E se quer saber, não importa. É mesmo bom pensar que seu verde e o meu estão por aí escondidos, esperando o melhor momento para voltar e dizer que, na verdade, esse tempo todo estavam juntos em todos os lugares, com todos os verdes do mundo que andam sumindo por aí. Se quer saber, acho que um dia o verde vai deixar de ser ausência para se transformar em preenchimento. E vamos celebrar o verde de novo. Eu e você.

8 de julho de 2016

Carta de um fã palpiteiro


Queridos roteiristas do seriado “House of Brasil”,

Fico pensando de onde tiram tanta criatividade. Achei excelente a primeira temporada, especialmente os últimos episódios, que culminaram com o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Derrubar um governo usando como argumento uma pedalada fiscal que vários políticos já fizeram — como o capítulo “A volta dos que não foram: todos somos pedalados”, primeira temporada, muito bem mostrou — é, sem dúvidas, uma tacada de mestre dos roteiristas. As reviravoltas foram impressionantes, porém a que mais me deixou sem ar foi quando Eduardo Cunha renunciou — sinceramente, eu achei que ele seria o grande vilão da série, espero que estejam pensando em algum tipo de volta triunfal para ele — dando ares para o novo presidente interino da câmara dos deputados, no final do episódio “O Império Contra-Ataca: A Decisão de Maranhão”, tentar cancelar o Impeachment. Meu coração quase veio na boca!

O que mais apreciei no episódio “Votação na Câmara na Frente das Câmeras” foi que vocês deram destaque para a deputada Raquel Muniz exaltando o nobre prefeito de Montes Claros que, segundo ela, estaria realizando uma gestão exemplar. E então, na cena pós-créditos, ele foi preso no dia seguinte! Pensei que após a “season finalle”, com o afastamento da Presidente, o seriado daria uma esfriada. No entanto, a segunda temporada está sendo tão boa quanto a primeira, ou até melhor. Os episódios de gravações da Lava Jato estão muito mais intrigantes. Os personagens Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney estão exímios. Talvez vocês poderiam ser mais realistas e ter menos preciosismo com os personagens. Não é apelativo demais que políticos com tais áudios nunca vão parar atrás das grades?

Ademais, adorei a referência aos livros clássicos de distopias. O ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, que tanto promoveu a violência policial contra negros e pobres, tornou-se o titular da pasta da Justiça. Lembra muito a composição ministerial de “1984”, do George Orwell, em que o Ministério da Paz é o que promove a guerra. Um personagem que teve participação bastante ativa na primeira temporada e está um pouco sumido nesses capítulos mais recentes é o Lula. O episódio do sítio e tríplex não ficou bem resolvido e é uma ponta solta importante da série.

Sobre Temer, acredito que vocês poderiam ter escolhido um ator melhor para encená-lo. Às vezes ele me parece um vampiro, inexpressivo demais — não que Dilma seja melhor atriz que ele. É curioso que todo país tem um presidente e o Brasil nesse seriado, que se mostra um local de muita riqueza, tem dois.  Outro fato é que às vezes vocês exageram nas ironias. O presidente do senado, é também o que defende o fim das gravações. Nove dos ministros do Governo Temer foram citados na Lava Jato. Sem falar da extinção — e posterior retorno — do Ministério da Cultura. Talvez não seja um recurso narrativo tão eficiente fazer os personagens tomarem decisões das quais logo se arrependerão e voltarão atrás. Aliás, ainda bem que agora vocês tiraram um pouco o pato do pano de fundo das imagens (apesar de eu achar que ele atua melhor que o Temer).

Gostaria de parabenizar pelo trabalho que vêm fazendo semana após semana. Deve ser difícil manter a audiência entretida durante tanto tempo com um tema que não atrai muitas pessoas como a política. Fora que nunca sei em qual personagem acreditar. Parece que vocês não vão deixar sobrar nenhum para ser o mocinho. Mas pensem com carinho no Moro. E lembrem-se, como diria Nietzche: “A arte existe para que a realidade não nos destrua".

Ass.: Uma pessoa que os admira profundamente, mas com ressalvas.

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