25 de dezembro de 2015

Pra segredo, band-aid


Segredo é um machucado
Que deve ser cuidado
E se quiser ele bem guardado
Não o conte a um bocado

O guardião dele é a vaidade
E não lhe dê força motriz
Com o tempo, ele perde a validade
No máximo, resta uma cicatriz

Depois, há duas alternativas
Ou é divertido falar dela
Ou se ignora que estão vivas

E as joga pela janela

11 de dezembro de 2015

Ficar, verbo intransitivo


— Ficamos.

— Ficaram o quê, filho?

— Ficamos, ué.

— Ficaram de bem ou ficaram de mal?

— Só ficamos, pai. Só ficamos.

— Quanto estresse, garoto. Eu é que devia estar irritado, já que você não me conta o que aconteceu.

— Mas eu já disse.

— Disse o quê?

— Que nós ficamos!

— Ficaram perto? Ficaram juntos? Ficaram estranhos?

— Só ficamos.

— Na minha época, nós ficávamos alguma coisa, filho. Ficávamos de mãos dadas, ficávamos abraçados, ficávamos nos beijando. Na sua idade, eu ficava me amassando com um broto.

— Supimpa, hein.

— Não seja mal educado.

— Hoje nós só ficamos mesmo.

— E o que acontece depois?

— Não sei, pai. Vamos ficando.

— Ficando o que?

— Intransitivos.

8 de setembro de 2015

Entre a sanidade e um cano de revólver - Parte 3 de 3


Atenção! Essa é a parte final desse conto! Clique aqui para ler a parte 1 e aqui para ler a parte 2.
Isso era bem incomum para mim. Na verdade, era inédito. Quem estava com as cuecas borradas era eu, e não meu alvo. Em 17 anos nessa carreira de assassino profissional é normal encontrar algumas coisas curiosas, estranhas e até mesmo um pouco assustadoras. Mas nunca vi nada desse nível. O velho babão que eu tinha rendido e estava prestes a matar com um tiro bem colocado no coração agora estava na minha frente na forma de um monstro repugnante. A pele cinzenta parecia não refletir a luz, como se ele não estivesse de fato no mesmo universo que eu. Os olhos queimavam como duas velas acesas, as asas enormes quase não cabiam na sala, assim como seus chifres retorcidos. Nas mãos, com garras pontiagudas, a fera segurava uma foice de aspecto macabro.
— Mas o que significa isso? — apontei o revólver em sua direção, sem muita esperança de assustá-lo mais do que ele estava assustando a mim.

— Pelo menos vocês acertaram na foice — não entendi o que ele quis dizer e fiquei olhando com uma cara confusa durante alguns longos segundos. 

— Quer saber? Vou acabar logo com isso — puxei o gatilho e o acertei em cheio. Não sei se esperava que aquilo realmente funcionasse, mas se eu tivesse algum tipo de expectativa, ela havia acabado de se esvair por completo quando vi a bala ricochetear no peito da besta e atingir a parede oposta. A criatura dirigiu-se calmamente até o local onde o projétil havia aterrissado e o pegou em suas mãos. Observou-o por algum tempo.

— Está gravado com o nome daquele velho. Quando encontrá-lo, eu vou entregar seu presente a ele, pode ficar tranquilo. 

— Quem é você? — não sei até que ponto a pergunta era válida, mas aparentemente ela surtiu efeito.

— Sou a Morte, ora bolas.

— Puta que pariu. Você fala português e usa gírias inadequadas? — sim, para um assassino frio e calculista eu fui um tanto quanto imprudente nessa. 

— Cale a boca. Eu disse que lhe darei uma segunda chance porque gostei de você. Me identifiquei, na verdade. Somos um pouco parecidos, eu e você. Sabemos separar os negócios de outros assuntos. E por falar nisso, eu estou aqui cumprindo um trabalho para o qual fui contratado. Se você não quiser ser o meu próximo alvo, eu tenho um serviço para você — esse era definitivamente o meu cliente mais importante, e olha que eu já tinha emprestado minhas habilidades aos homens mais poderosos da Terra. — E não se esqueça de que eu posso caçar você onde estiver. Siga as instruções que estão sobre aquela mesa e quem sabe você não poderá ser útil para mim daqui em diante? Estou precisando me aposentar. Não posso negar que você tem capacidade para assumir meu posto.

Ótimo, parece que eu havia acabado de arranjar emprego para a eternidade. Literalmente. Olhei em volta pelo gabinete do presidente da empresa e havia alguns papéis grampeados e cuidadosamente arrumados sobre sua escrivaninha. Voltei a mirar a fera, mas não a encontrei. A Morte havia sumido por completo e eu estava sozinho naquela sala com instruções para invadir um apartamento e matar um homem. Curiosamente não havia nenhuma foto do sujeito, quanto menos seu nome era informado. No entanto, o documento dizia que o alvo estaria em sua sala sem sombra de dúvida e seria a única pessoa no apartamento. Eu deveria eliminá-lo e poderia ir embora. Caso as instruções não fossem seguidas à risca, o monstro viria me buscar para algo não muito agradável. Aparentemente eu não tinha escolha.

Apartamentos não costumavam ser áreas difíceis de se infiltrar. Pelo menos não para quem já entrou e saiu de uma base militar deixando para trás o corpo de um general estendido em seus aposentos, que só foi descoberto horas depois. Entrar em empresas é mais complicado, mas às vezes eu prefiro assim porque é muito mais fácil ficar a sós com a vítima. Nunca encontrei resistência para adentrar mansões também. A única coisa que nunca me atrevi a fazer foi matar alguém em público sem ser notado, mas ainda é um fetiche que eu tenho. Não me olhe assim. Se você chegou até aqui, deve estar acostumado com a minha mente.
Existem alguns truques muito simples para entrar em um condomínio sem levantar suspeitas. Por exemplo, se passar por entregador de pizza. Antigamente esse funcionava melhor, mas hoje em dia já é um pouco manjado. Eu costumo ligar para uma garota de programa que conheço e fazê-la se passar por minha cliente. Ter uma mulher com você tira toda e qualquer chance de que você seja um criminoso na cabeça dos porteiros. Ainda mais se ela tiver um belo par de seios fartos e uma voz rouca e sensual. 

A donzela ajeitou os cabelos enquanto falava no interfone. Ela simulou não estar ouvindo nada e pediu que o funcionário viesse até o portão. O homem veio, enrubescido pela vista proporcionada pela bela dama. Até um cego podia ver que seu olhar não conseguia parar de descer pelo pescoço dela. A moça contou algo sobre estar indo visitar o apartamento que está à venda. A mentira foi tão bem feita que o porteiro se animou com a possibilidade de ela morar lá e apressou-se em permitir sua entrada. Eu seria o corretor, então consegui entrar também. Deixei que ela falasse o tempo todo para que o homem não se lembrasse de meu rosto ou minha voz, e me mantive em pontos cegos que as câmeras não cobriam bem, usando uma boina providencial que me deixava com cara de velho, mas impedia meu reconhecimento facial por parte do sistema de segurança. Sim, esse plano como um todo é ridiculamente simplório, mas sempre funciona. 

Uma vez dentro do condomínio, a tarefa era simples. Dispensei a ajuda da garota e me dirigi à torre do meu alvo, sempre me certificando de me manter inatingível em relação às câmeras de vigilância. Eu nunca tentava ocultar o cadáver ou disfarçar o crime de alguma forma, mas precisava ser o mais discreto possível para que o corpo só fosse descoberto quando eu já estava em segurança. Além do mais, não seria bom para os negócios se os clientes não tivessem certeza de que era eu quem tinha cumprido o serviço. No entanto, eu não podia ser pego então tinha de agir de modo a não levantar suspeitas até ir embora e não ser identificado. Mesmo que descobrissem quem era o assassino, não teriam como chegar até mim sem saber quem era o homem misterioso nas gravações. 

Entrei no elevador e apertei o botão. O andar era alto, o que não é bom. O tempo de fuga é maior e eu tinha de me assegurar que ninguém descobriria nada até que eu estivesse a muitos quarteirões dali. Não seria nada bom ficar preso dentro do condomínio porque algum vizinho estava em choque e o síndico ordenara que ninguém poderia entrar ou sair. Com tudo isso em mente, saí da caixa metálica sobre o poço e me dirigi à porta de meu alvo. O documento me assegurava de que ele seria o único no apartamento. Eu não ousaria duvidar de alguém à prova de balas e com asas daquele tamanho. Bati na porta. Eis que, quando penso que nada mais poderia me assustar naquele dia, me sinto novamente arrebatado no momento em que a porta se abre. 

— Estava te esperando — a voz era familiar. O rosto era familiar. O homem que apontava um revólver silenciado na minha direção tinha exatamente as feições do meu psicólogo. Aquele mesmo que havia tido a audácia de insinuar que eu poderia ser um psicopata e, como punição, eu dei cabo dele. Ou melhor, pensei que tinha dado, porque lá estava ele na minha frente.

— Como você pode estar aqui? -- retribuí a gentileza e apontei minha pistola para ele, sem esconder o olhar de surpresa e confusão.

— Você pensou mesmo que eu morreria  naquele acidente? 

— Por onde você andou?

— Eu lhe agradeço. Você me deu um belo presente. Graças à sua farsa, pude conseguir uma identidade nova e planejar a sua morte cuidadosamente. 

— Aquele bichinho com asas era seu animal de estimação então?

— Eu fiz um pacto. Ele me garantiu que você iria ao meu encontro. Só tive de aguardar. Foi mais fácil do que atrair uma criança para uma doceria. 

— E se a criança comesse todos os seus chocolates?

— Isso não vai acontecer.

Essa não era a primeira vez que eu tinha de bater de frente com uma vítima. Só era a vez mais estranha. Aquele cara era um homem morto, mas não era um fantasma. Ele era bem real. Real demais para o meu gosto. Senti sua movimentação súbita e meu reflexo foi uma esquiva que mais pareceu um espasmo. O tiro que ele desferiu atingiu minha clavícula, e eu balancei para trás tentando me equilibrar. Meu oponente não recebeu bem o recuo da arma e também deu alguns passos para trás. Aquelas frações de segundos foram importantes para que eu firmasse meus pés. Ele apontou novamente, mas dessa vez foi muito mais previsível. Antes que seu dedo puxasse o gatilho, eu já havia saído da mira de sua arma. Ele hesitou e eu me arremessei contra seu corpo. Ambos caímos no chão e os revólveres foram soltos. Antes que ele pudesse tentar se levantar, eu já estava sobre seu corpo desferindo golpes certeiros em suas têmporas. Me levantei rapidamente e, antes que ele se recuperasse, peguei minha pistola e o coloquei na mira.

— Como pode? — ele murmurou, ainda desorientado pelos socos. 

— A Morte disse que gostou de mim e me deu uma segunda chance. Ela lhe garantiu que eu viria ao seu encontro, não que você acabaria comigo. Talvez ela não goste de ser perturbada por causa de uma simples vingança. Me matar era tarefa sua. 

— Seu maldito.

— A criança se lambuzou com os chocolates.

A neblina densa não me permitia enxergar nem o outro lado da rua. Eu estava sentado no balcão de um boteco fedorento enquanto tomava uma dose do uísque mais forte que aquela espelunca podia servir. Minha garganta ardia enquanto eu ainda avaliava qual das prostitutas eu deveria escolher. Na televisão, o âncora do jornal matraqueava baboseiras sobre o presidente de uma empresa gigante que morrera com um tiro misterioso no peito. Tomei o último gole e escolhi a morena. Sempre preferi as morenas mesmo.

4 de agosto de 2015

Entre a sanidade e o cano de um revólver - parte 2 de 3


Atenção! Essa é a segunda parte de um conto. Caso não tenha lido o começo, clique aqui!
Depois de tudo o que contei, certamente não há mais dúvidas sobre o quão insano eu sou, então deixemos essa questão de lado para ir ao que interessa. Eu ia atacar meu alvo enquanto ele estava de cuecas. O velho definitivamente não receberia ninguém enquanto estava guardando aquele pinto mole, então era de fato o momento mais estrategicamente seguro para atacar. Eu já tinha me certificado de que não havia câmeras na sala dele, mas esses acontecimentos recentes me confirmaram isso. Ninguém transa com a secretária sabendo estar sendo filmado. Tudo estava pronto. Finalmente, depois de horas a fio naquele maldito tubo de ventilação, eu poderia esticar minhas canelas, finalizar aquele serviço e ir embora. Abri cuidadosamente a tampa de alumínio da saída de ar e me espremi para adentrar o recinto. O alvo quase teve um enfarto quando me viu, mascarado e segurando uma pistola silenciada. Ainda estava fechando o zíper quando tentou gritar pelos seus seguranças. Eu rapidamente o imobilizei e coloquei a mão sobre sua boca. É claro que eu estava preparado para isso. Amordacei o homem e o deixei sentado em sua cadeira, ainda sem camisa, com aqueles pêlos brancos repulsivos enrolados no peito suado.
A mão firme segurava o revólver com estabilidade. O dedo se mantinha flexionado, pressionando levemente o gatilho. Eu estava, como sempre, no controle da situação.
— Você tem algum último desejo? — Gostava de dizer algumas baboseiras enquanto a vítima se cagava de medo. Só naquele momento alguém se dava ao trabalho de ouvir o que eu tinha a falar. Ninguém nunca está aberto ao outro. A menos que se possa beneficiar disso, as pessoas não estão interessadas em conhecer verdadeiramente seus semelhantes. Quando estou com meu calibre 38 silenciado apontado para a testa da minha vítima, me sinto importante, pois tudo o que eu disser, por mais idiota que seja, será ouvido com atenção. É o único momento em que grandes magnatas se curvam perante um simples anônimo como eu.
— Fui enviado até aqui por um senhor muito distinto que aparentemente precisava muito ardentemente que você estivesse fora do caminho dele. É claro que isso não é nada pessoal, são apenas negócios. Se isso te consola, sempre compro seus produtos — o velho se contorcia e ensaiava gestos como que pedindo para que eu tirasse a mordaça de sua boca.
Nessas horas eu vejo como sou dos bons. Foda-se a modéstia. Para falar a verdade, sou o melhor de todos. O que mais explicaria o fato de que eu estava no último andar do prédio da sede administrativa de uma das maiores empresas do continente, sem permissão e sem despertar nenhuma suspeita, prestes a matar o homem do ano? Já estava vendo a cobertura televisiva intensa naquele lugar e a polícia encontrando um bode expiatório qualquer. Em casos dessa magnitude, eles nunca admitem não ter pistas sobre o culpado e acabam apontando o dedo para qualquer pessoa que tenha o mínimo de suspeita. A televisão crucifica o sujeito e manipula a opinião pública para acreditar que ele realmente é o assassino. Geralmente meus clientes se saem duplamente satisfeitos, porque acabam matando dois coelhos com uma cajadada só. Quer dizer, matam um dos coelhos e colocam o outro atrás das grades.
Certa vez, meu próprio cliente se descuidou e deixou transparecer que poderia ser um suspeito em potencial. Eu sabia que ele não aguentaria nem cinco minutos em um interrogatório e cuspiria tudo o que sabe sobre mim. Por sorte, ele era podre de rico e planejou fugir do país em seu jatinho particular. Foi um terrível acidente aéreo, chocou todo mundo. Confesso que aquela foi a única vez que cheguei a deixar rastros, mas consegui encobrí-los perfeitamente e a culpa não era minha. Depois desse triste episódio, passei a orientar meus clientes para que eles não fossem pegos. Ora essa, além de fazer todo o trabalho sujo, ainda tenho de ser o consultor.
O velho estava finalmente aparentando tranquilidade, então resolvi tirar a mordaça da sua boca e ter um diálogo decente. Já nem sabia mais o que falar e estava ficando entediado. Dizem que alguns leões gostam de brincar com a presa antes de devorá-la.
— Vou tirar esse negócio e te deixar falar. Mas preste atenção. Você grita, você morre. Se tentar alguma gracinha, idem — ele assentiu e eu retirei o que obstruía sua boca. Ele não disse nada durante um bom tempo, então resolvi intervir.
— Tem algum último desejo, homem?
— Sim. Vá para o inferno — o alvo cuspiu no chão e me olhou com raiva. Senti firmeza. Gostei dele. Geralmente os tipos como esse morrem de maneiras patéticas, imploram por suas vidas, se dizem arrependidos, clamam por piedade. Esse é dos meus. Encara as coisas de frente.
— Parece que você tem dignidade mesmo seminu, hein.
— Quanto estão lhe pagando? Posso oferecer o dobro, o triplo. Garanto sua segurança pelo resto de sua vida. Quer estar em um iate em Ibiza com dez prostitutas à sua volta? Eu posso realizar isso. Providencio hoje mesmo — parece até que ele leu meus pensamentos.
— É tentador, mas você sabe quantos já não me ofereceram algo parecido? — Nada tão assustadoramente semelhante ao que eu estava pensando, mas acho que ele entendeu o que eu quis dizer. — Peço desculpas, mas vou ter que recusar. Eu tenho um pouco de ética, por mais que você possa duvidar.
— Não duvido. Aliás, acredito tanto em você que vou lhe dar uma segunda chance.
— Do que diabos você está falando? — será que ele estava delirando à beira da morte? É bem mais comum do que se imagina.
— Gostei de você. Geralmente os tipos como o seu se rendem ao ouvir falar de alguns milhões na conta bancária, uma identidade falsa e passe livre para o exterior. Você é dos meus. Encara as coisas de frente — aquilo estava começando a ficar esquisito. Juro que não sabia quem estava delirando quando, bem diante dos meus olhos, aquele velho de cuecas se libertou das amarras e se metamorfoseou em uma espécie de demônio com olhos vermelhos, asas negras e uma foice nas mãos. Caralho, de onde veio essa foice? Cadê aquela cueca borrada?
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3 de agosto de 2015

Entre a sanidade e um cano de revólver - parte 1 de 3



Eu era o melhor de todos. Porra, eu sou o melhor. “Alma Penada Serviços em Geral”. Esse é o nome do meu estebelecimento. Não é tão atrativo, eu sei. Mas dá pro gasto. Assusta os fregueses mais desavisados. As pessoas sabem o que querem quando batem na minha porta. Não chegam até mim por acaso. Nunca fui muito do tipo empreendedor. Talvez até ganhasse mais dinheiro se me empenhasse mais na divulgação do meu negócio, mas prefiro manter a cautela e aguardar clientes de confiança. A grana não é muita, mas dá para viver. Só preciso de uns dois contratos por mês e consigo pagar minhas contas tranquilamente, com álcool, cigarros e prostitutas inclusos. Não preciso de mais nada. Para um assassino profissional, está mais do que bom, não é verdade?

 
Os pensamentos voltaram à tarefa. Lá estava eu, mofando em um tubo de ventilação fétido e imundo pelas últimas três ou quatro horas, esperando minha vítima adentrar seu escritório enquanto limpava meu revólver e ajeitava o silenciador. Aquele brinquedinho já havia mudado os rumos da história algumas vezes, apesar que ninguém soubesse. Dali saíram as balas marcadas com o nome de políticos, empresários e pessoas poderosas de toda sorte. Afinal, eu tenho um capricho na hora de aceitar serviços: só assino contratos após receber uma bala com o nome do alvo gravado e uma rosa. A polícia nunca vai me pegar mesmo, então eu gosto de dar uma pista a eles sobre cada um dos meus trabalhos. Sempre que eles encontram um projétil nomeado, sabem quem fez o serviço. É estranho, eu sei. Na semana passada, meu analista disse que eu tinha traços de psicopatia e esquizofrenia, e queria me examinar melhor para saber qual era o grau do meu distúrbio. Só não meti uma bala no meio da testa dele ali mesmo porque, metódico como ele era, deveria ter cada passo do meu caso registrado. Fiz parecer que foi um trágico acidente. Apareceu na TV e tudo mais.

 
O velho chegou no escritório acompanhado de outro executivo. Eu estava observando tudo pelo tubo de ventilação que, apesar de não ter sido limpo desde a última era do gelo, era mais confortável que a maioria dos buracos em que eu tinha de me enfiar para concluir minhas missões. Nunca fui muito do tipo Rambo, de entrar pela porta da frente atirando em qualquer coisa que se movesse. Meu estilo sempre foi mais tático e paciente. Se eu fosse mesmo psicopata, faria uma carnificina a cada contrato, mas eu tentava ao máximo me infiltrar e passar despercebido para matar apenas meu alvo. Ou será que é o contrário? Que seja, não sou um psicopata. Só preciso de dinheiro para financiar minhas idas aos bordéis da região e a única coisa que eu sei fazer bem é matar. Não é como se eu fizesse por prazer, como esses caras que aparecem no jornal. Eu tento ser o mais limpo possível também, e sigo um código de conduta próprio. Um psicopata não faria isso. Bem, não importa. Não é um analista mequetrefe que pode me dizer o que eu sou ou não sou.

 
O executivo foi embora. Parece que estavam discutindo negócios muito importantes. Quantos carros esse cara deve ter na garagem? Uns três, no mínimo. Ele é presidente de uma das maiores empresas de eletrônicos do país. Será que esses empresários não se contentam nunca? Com a grana dele, a essa hora eu estaria em Ibiza com umas dez prostitutas em um iate, e não enfiado numa salinha fazendo negócios. Muito menos no tubo de ventilação dessa salinha. Meus serviços não são baratos, eu assumo, mas o que estou sendo pago para dar cabo desse velho não deve pagar nem o terno dele. Às vezes eu me sinto fazendo algo de bom para a sociedade. Claro que não aceito qualquer trabalho. Como eu já disse, sigo um código de conduta.

 
Ainda não saí desse maldito cubículo porque o homem chamou a secretária para a saleta. No entanto, ela demorou tanto tempo que eu poderia muito bem ter acabado com o serviço e já estaria a três quarteirões daqui, andando com as mãos nos bolsos como se nada tivesse acontecido. Quando eu concluo uma tarefa, espero a rosa do meu cliente murchar e a deixo em algum local combinado para que ele saiba que está feito. É claro que às vezes eles ficam sabendo antes, seja pela televisão ou por outros meios, mas gosto de manter o ritual.

 
A secretária chegou na sala do meu alvo. Ruiva, cabelos lisos presos por um coque, óculos, terninho cinza, saia combinando, unhas vermelhas, salto alto e uma silhueta inacreditável. Fiquei boquiaberto com o que vi acontecer diante dos meus olhos. O homem abriu uma gaveta em sua mesinha, tomou um comprimido e começou a passar a mão na massiva bunda de sua funcionária. Não sabia se eu ria ou se chorava quando aquele velho decrépito começou a arrancar o sutiã dela.

 
Pelo que eu havia lido no meu relatório, ele tinha uns 85 anos. Por que ele não levou essa ruiva para dar a volta ao mundo queimando dinheiro? Agora ele estava ali, tendo a última transa de sua vida na minha frente só por que outro empresário nojento me pagou para tirá-lo do caminho. Eu nunca tinha tido que esperar meu alvo trepar para poder acabar com ele. Muita coisa curiosa já havia acontecido nos 17 anos em que eu mato gente por dinheiro, mas nada desse nível de bizarrice. O episódio que chegou mais perto foi quando eu surpreendi um deputado em sua casa e o coitado levou um susto tão grande que morreu do coração antes que eu pudesse falar qualquer coisa. Não sabia se atirava por pura formalidade ou se deixava o cara lá e ia embora. Mas pensei que, como ele morreu por minha culpa, eu não estaria sendo desonesto com meu cliente se cobrasse o valor normal e devolvesse a bala a ele.


Por sorte, o presidente da empresa de fato tinha 85 anos, o que quer dizer que a secretária acabou com ele em uns cinco minutos e voltou para seu posto. Pensei que seria engraçado surpreendê-lo enquanto ele ainda estava de cuecas. A essa altura, ninguém questiona mais minha insanidade, então não preciso me preocupar com a minha imagem.

17 de julho de 2015

O que move o artista


























Hoje deixo meu coração aberto como uma janela decorada de violetas e a porta escancarada para visitas que não esperam sair ao fim dessas linhas obsoletas. Talvez não nos falemos muito, mas quero convidar você a um passeio comigo no que te faz viver sem olhar pra trás no mundo.
Pois é verdade sim que costumamos ter muito medo do que está por vir. Não vivo dizendo isso aos quatro ventos por querer esconder um sentimento tão natural, ou com qualquer outro fim. É porque sei que o medo está feito erva daninha e que quanto mais chove coisa ruim, mais ele dá em galho, em que qualquer acerto torto faz tocar na cabeça e formar uma dorzinha aguda que só...
Assim, quando presto atenção parece que há aí o outro lado da questão. Algo que de vez em quando me ataca tal qual a vontade de comer chocolate, e eu fico ali toda doce. É aí que o danado dissipa-se com a rapidez de um sopro de vento em dente de leão. Eu deito sobre ele e digo que hoje não.
Se não me engano foi desses dias loucos que eu tirei, ao acordar, uma vontade de dançar a conquista do mundo. Pensei que era hora de pensar mais até onde jamais achei que seria capaz do pensamento mais pensante chegar. Disse que, se tanto ele havia se dado ao trabalho de me aborrecer, então, que me transtornasse logo com uma enxurrada de idéias insanas, loucas e boas. Afinal, a engrenagem é toda desse jeitinho asqueroso, desprendido de qualquer complexidade: você dá um trabalho qualquer e ela logo começa a girar até te deixar torta. Pois bem, que seja torta de felicidade e que seja saborosa.
Daí desatei o nó daquela amargura que não perdoa nem mesmo algo que caiu na hora errada, indo desaguar justo no mindinho, e decidi que aquela noite seria só minha. O que isso quer dizer talvez seja um conceito tão amplo que demore anos a ser feito e se entender. É que tudo o quanto é gente nem sempre percebe quando suga de canudinho aquela coisinha chata e abstrata. O tal medo não está dentro se não deixar que entre, é um copo cheio que pode se achar em qualquer ponto dentro dessa imensidão e a qualquer hora. Ignorá-lo é o mesmo que ter o olhar vislumbrado apenas pra aquilo que há de bom nessa existência pequena e disforme a qual damos tanta importância e a quem chamam de vida.
Talvez esse seja meu remédio de placebo travestido em otimismo fecundo em misericórdia de mim. Dentro de lá, com cautela e esmero, meu olhar, nem sempre certo, vê muito de um fogo como de Camões e, daí, me altero. Quando me pergunto do que tenho medo, venho, antes, tentando descobrir menos disso e mais daquilo outro, também chamado de "o que eu quero". Toda a gente tem medo estritamente conectado de não conseguir algo casualmente ligado ao que se quer.
Pois é logo certo, que o que se quer vem de dentro e a doideira estridente vem de fora para prevenir qualquer problema que o de dentro possa ter. Então, eu olho pra mim mesma e digo que quero escrever. Repito, para convencer, que quero muito escrever. Quero contar histórias! Mesmo que navegar por elas me dá um calafrio tão bom quanto a brisa do mar voando em um tiroteio de risos acusticamente muito bem liberados. Se penso nisso, o chatinho, a quem carinhosamente apelido de medo, passa. Afinal, não importa o meio, o fim e nem o começo. Os tropeços os faço logo a modo de adentrar nessa loucura imediata que vem perdurando por toda a minha vida e da qual não posso desgarrar.
O que perderei no meio do caminho, não se perde dentro da gana, que é a minha fama e lama. Uma questão biológica de (des)orientação própria nesse farfalho de trovões e vozes a sussurrar que é esse aqui mesmo é meu mar. Não se trata mais do que dá errado já que no fundo é só eu e o mundo. "Só" porque qualquer coisa mensurável pode ficar muito simples dependendo do tipo de outra parte, que se compare em igual ênfase e combate.
Essa tal coisa danada de que retirei até mesmo um tempo precioso para dar lhe apelido vira, então, ideia que some. Me vejo como um tigre que ataca a presa. Eu tenho a mesma fome! Não é mais preocupação por ela vai fugir, o importante é traçar um bom plano pra me encher todinho desse que apelido "sem nome". Desse modo, penso que de tal e arriscada maneira, se a presa não der certo, outra será agarrada. Pois bem se sabe que funciona na natureza exatamente deste modo primitivo e tão natural, que pra ser cativo precisa do correr certo dos tempos e das vontades. Se não entende, vislumbre pela maneira seguinte; de que a caça é a palavra que some.
Mesmo que seja e que tudo acabe, a paixão ainda está lá, porque ela não é bicho que se mata ou morre fácil. Na verdade, ela é a floresta inteira, me sustenta da mesma sensação que o sol vem cair de mansinho - de jeito que hidrata até mesmo a cuca mais rachada. Desde então, acaba-se. Sou a paixão que circula nas veias e, por ela, com ela, sobrevivo. Sem ela, morro todos os dias. Sem a divagação da ideia, sem o "sem nome" eu não sou ninguém, sem nada.
Quando percebo tudo o que lhe digo, o primeiro apelido tosco vai se'embora. Caso não se permita dar certo, eu ainda estarei caçando o alimento porque é dessa indispensabilidade que vivo. Como se fosse a cabeça. Não pode ser tirada de mim, pois, bem ou mal, sem ela não sou nada além do que posso vir a ser. Ser só a gente também é algo meio condoído e simplório. Nessas horas é que se vê mover mundos e fundos pra tentar soltar uma gota do mar de tudo que te transborda. O prazer é imenso e grande. E quando ele vem... Ah! Quando ele vem é um balde que inunda tudo que teus olhos podem correr, as criaturas e cada área de teu ser.
Quando ele vem as mãos se eletrizam, o sangue pulsa rápido e a respiração, ofegante, percebe que já estava desde que nasceu. Quando ele vem, desligo do mundo pra tentar entrar minimamente. Quando ele vem, não entendo nada de mim para, dessa forma, tentar entender o mundo e todas as pessoas de uma só vez e gota, e mar. Quando ele vem, é como o universo e o explorador. Quando ele vem é encantador e tão forte que traz vida ao mais moribundo dos seres inativos e das dobras dos cérebro mais empoeiradas.
Quando ele vem, move e causa tanto alarde que é necessário jogar pra fora, nem contar meia verdade ou entender só metade. Quando ele vem é pra entender o quanto de cada quantidade tem aquilo que ali está, mesmo sendo impossível contar. Não é nada mais complexo do que isso. Seja esse o tal do sentimento que se diz, e muito bem o seja dito, e que tanto falam. É com certeza isso que vai na alma de todo e qualquer artista.

12 de julho de 2015

O que eu sou ainda não tem nome


O universo é uma máquina de reciclagem. A cada cinco anos, o corpo substitui todos os seus átomos, sendo que um ser humano tem mais destes do que a Via Láctea tem estrelas. Em média, eu possuo alguns milhões de átomos que já pertenceram a cada pessoa que viveu antes de mim. Gandhi, Buda, Aristóteles, Asimov, John Lennon fazem parte dessa carapaça de carbono e água que serve como suporte para que meu ser imprima sua existência nesse universo.

A essência de todos os seres parece singular e única, como um lampejo em meio à escuridão. Vejo-me a princípio como um intervalo no tempo e no espaço. Sou, no entanto, composto por tantos, nas células, na psique e na língua, que me delimitar em um “eu” e ignorar o cosmos seria ingenuidade. Sou um misto da coletividade que me precede? Se não posso dizer que sou nem mesmo meu próprio receptáculo, o que eu poderia ser? Um conjunto de impulsos em um cérebro ou algum tipo de energia envolta em mistério? Sou nós todos, que também somos eu.

Assim como uma cachoeira tem sua água renovada a todo instante, o ser rompe com a embalagem para se revolucionar constantemente. Não há um invólucro que possa reter os espasmos de um ser em sua plenitude. A linguagem é a única maneira de superar a ausência de sentido da existência. Dá-se nomes, significados e objetivos.

A nomeação falha na tarefa de dar conta desse "eu" que me escapa por entre os dedos quando tento me apanhar em uma ideia. Avanço para além dos limites de meu corpo em decomposição. Desde que nasci, estou em um processo de putrefação que não pode ser evitado, apenas adiado. Faço as vezes de uma máquina de morrer. O que posso fazer para apreender minha existência é traduzí-la em tentativas de linguagem, por mais que esse exercício possa se desmanchar no ar devido à fragilidade.

Não há na língua portuguesa construção que permita expressar ou definir o ser simultaneamente em sua singularidade e em sua coletividade. O cosmos é um todo composto por várias partes interligadas entre si, de modo que não se pode dissociar um e outro. Somos um só à medida em que cada qual é um fragmento ao mesmo tempo em que não precisa de complemento.

Se compartilho dos mesmos átomos, do inconsciente coletivo, do éter universal, o que me resta para corroborar a singularidade é a linguagem, que define o mundo e a maneira pela qual existo nele. Crio e extinguo as barreiras da existência por meio não só da palavra mas de toda a expressão que se possa criar com ela. O que sou me escapa por um fio de pensamento, foge da vista e volta como o ser em sua complexidade, sem ser apreendido por signos alfabéticos sobre o papel.

Eu tento me capturar na língua, mas me encontro fora das palavras, meio que no espaço entre uma letra e outra, sob os pingos dos is. Meu ser se delineia por entre as fronteiras desse espaço chamado linguagem. Parafraseando Clarice, diria que André é pouco. O que eu sou ainda não tem nome.

10 de maio de 2015

O homem atrás da porta




Não sei muito bem como aconteceu. Tudo era perfeito até que um dia acordei e meu dedinho da mão havia sumido. Não que ele não estivesse mais lá. Eu podia pegar coisas e mexer ele, porém não mais o senti novamente. Em fato, eu não senti muito problema nisso e nem achei que fosse me atrapalhar a falta de um dedo mísero. Dizia a mim que eu era um homem forte por saber lidar bem com algo estranho.


A esta altura de minha vida, já morava sozinho e não tinha a quem ligar correndo para contar aquele estranho caso. Sempre tive muito orgulho da minha casa e de como trabalhei muito como um professor comum, mas apenas no sentido de ser algo normal porque, na verdade, fui excepcional. Usava maconha às vezes e gostava de sair para beber até cair duro em semanas divertidas. Pensei que a falta do dedinho poderia ser algum colapso causado por esses pequenos impulsos que em nada alteram a vida. Na sala de aula, todos sabiam o quanto eu era fenomenal. Claro que não me importaria se alguns alunos dissessem o quanto me adoravam de vez em quando.

3 de maio de 2015

Com carinho, para mim



Há um incomodo em meu peito
Há por aí alguém?
Eu, pare de ajudar ninguém
Que logo aparece sufoco desse jeito


Você, que está sempre comigo,
Sabe o que dizer na hora certa
O pior dos bons amigo
É a entranha da coberta



28 de abril de 2015

Tragédia pouca não dá notícia

- Menina, você não sabe! Meu filho desmaiou e caiu da escada! Tá no hospital, com a perna quebrada, vê se pode!
- Mas como isso, minha irmã? Do nada?
- Não sei. Ele disse que tomou aquele remédio pra dor nas costas, mas também falou que não tinha comido nada a tarde inteira. Sei não. Bom, vou desligar. Mas ele tá bem, viu? Só não vou passar por aí hoje pra almoçar. - A primeira irmã voltou a falar.
A outra disse que não tinha problema e desligou. Logo todos chegaram para o almoço na casa de Dona Maria, a segunda irmã, e ela tratou de contar ao neto o ocorrido.
- Matheus, sabe o Alfredo? Ele desmaiou e caiu da escada depois de tomar um remédio! Foi daqueles comuns, pra dor nas costas!
- Caramba, vó. Que complicado. Espero que ele esteja bem!
Matheus deu de ombros, comeu tudo e saiu correndo para encontrar com a namorada. Foram ao shopping, mas logo ela passou a reclamar de dor de cabeça devido ao ar gélido do local. Da bolsinha a tira-colo, sacou logo um remédio.
- Peraí, Ana! Toma cuidado com esses remédios que você toma...
- Por que, Matheus? - Ana riu.
- Nossa, meu primo Alfredo caiu duro da escada depois de tomar um desses. Desmaiou e plaft no chão!

21 de abril de 2015

Tempo aproveitado, tempo desperdiçado


No princípio criou Deus o ócio. A atividade mais produtiva de que se tem notícia é uma boa tarde de nada. Se o capitalismo tivesse alguma ponta de racionalidade, os proletários seriam pagos para não fazer nada. Eu não fazia nada quando esse fato me ocorreu. É no tudo que reside o caos. O nada é a última morada do espírito, o subúrbio da existência. O que somos nós quando não estamos sendo? Lá vinha eu caminhando pelas quebradas estreitas dessa favela, do alto dos altos e baixos dessa intransitividade que sou, quando me deparo com um trânsito desconcertante.

O deslocamento não tinha dimensões colossais, mas o fluxo intenso de carros fazia com que a viagem levasse mais tempo que o planejado. No interior do veículo, meus pais e eu dividíamos o ar a ser respirado, muito mais do que suficiente para os três. Tudo parecia bem, o rádio exprimia sons suaves, cujos compassos imprimiam em mim uma profunda sensação de bem estar. Meu ser estava completo naquela situação, e não havia nada mais a se fazer.


14 de abril de 2015

Nos 70 anos de Ritchie Blackmore, contamos a história do guitarrista em 11 músicas


Um dos ícones da guitarra nos anos 70, Ritchie Blackmore ajudou a definir o hard rock setentista e a criar a mística quase sagrada em torno dos astros intocáveis do estilo. Com seus solos virtuosos que, ao lado de outros nomes, criaram o alicerce do heavy metal, ele buscava referências no blues, no rock ‘n’ roll dos anos 50 e até mesmo na música erudita. Agora, aos 70 anos de idade, ele repousa sobre seu legado como um dos guitarristas mais importantes da história. Prepare-se para um passeio pela história dessa lenda do rock!

8 de abril de 2015

E se o mundo pudesse falar?


Por Bruna Meneguetti

Imagine que o mundo possa falar. Na verdade ele pode, apenas nunca quis dizer nada. Parece que certa vez ele realmente sentiu tal necessidade, mas ainda não havia ser algum que pudesse escutá-lo. Então, o mundo fez com que nós surgíssemos e desde então ficou mudo. O que ele tem a falar não é mais bonito do que o silêncio que ele pode nos proporcionar. 

29 de março de 2015

O teocídio



Eu cometi um teocídio. Não adianta me denunciar, o crime já prescreveu. Matar um deus sem posse de arma de fogo mediante pensamento racional e senso crítico pode não ser dos crimes mais hediondos, mas é dos mais comuns desde os tempos de Nietzsche. Não pergunte, eu não me lembro como foi. O matei aos poucos, como uma criança que esquarteja o amigo imaginário ou o Papai Noel, membro após membro. A propósito, vamos por partes.

16 de março de 2015

Por que temos medo do escuro? - Um cenário das manisfestações

Por: André Cáceres e Bruna Meneguetti


Impeachment e corrupção foram as principais pautas na manifestação do dia 15, este domingo. Pensar em seus múltiplos aspectos podem levar a entender porque muitos a apoiam e porque muitos são contra. Da parte daqueles que não estão ao lado desses movimentos, acredita-se que há certo medo do escuro, apesar de não vivermos em claridade plena e nem termos total escuridão hoje em dia. Isso é uma referência à ditadura, claro. Porque no escuro dela, pessoas que expunham qualquer opinião eram simplesmente massacradas e muitas vezes mortas. No escuro, sempre aconteceu muito mais do que no breu, penumbra ou luz focal de uma lanterna segurada por quem controlava e ainda controla, por vezes, as opiniões.

15 de março de 2015

Pílulas pra Alma #5 - Para criticar a política

Somos a revolução
Queremos o petróleo e o carvão
Somos o futuro
Desmatem tudo, jogamos duro 

Somos o governo
Guarde suas alternativas
Não importam as coisas vivas
Propostas boas ficam no caderno

2 de março de 2015

Carta endereçada a minha querida Spes

Olá, Spes.

Percebi, ao acordar, que você estava usando um vestido branco e dourado ontem a noite. Aonde foi tão bela? Bem, se todos soubessem o quanto um vestido causaria. Mas você, obviamente, não sabia. Você apenas o colocou. Eu sabia do que ele seria capaz. Em mim, claro.
E eu fico aqui pensando, - parado e sentado nessa poltrona, enquanto vejo um belo programa de TV - que o mundo, de repente poderia acordar de outra cor também. Você diz para mim que, na foto, está em preto e azul. Percebo que chegamos a discutir. Spes, isso não se trata de um vestido.

Como quando eu fui até a padaria e vi uma notícia sobre mulheres que estavam sendo ameaçadas por falarem as suas ideias feministas para o público da internet. Você pode ver, Spes, que não é o vestido. O buraco é muito maior e a genética deve ter alterado muito mais do que as percepções de cores no olhar humano.

O lápis com problemas de existência


Às vezes eu tenho que lembrar de que não sou um robô. Na verdade, isso é bem frequente. Então, eu cerro os meus olhos, me centro em mim e digo em voz alta (para que entre mais facilmente em minha mente): "Vá com calma, você é só um lápis. Repita comigo: Você não é um robô".

E fico nesse exercício até soar verídico.

1 de março de 2015

Coruja Cult #2: Whiplash



O caminho para o sucesso na vida é bastante árduo. Em todos os sentidos. Como já dizia o ditado: o único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário. Tendo isso em mente, o filme Whiplash, um dos melhores filmes do ano de 2014, indicado a 5 Oscars (incluindo o de melhor filme, vencendo o de melhor mixagem de som) mostra uma curta trajetória na vida do jovem baterista de 19 anos, Andrew Neiman (Miles Teller), Obcecado por jazz, sonha um dia estar entre os melhores bateristas do mundo, assim como seu maior ídolo, Buddy Rich, eleito em 2014 o maior baterista da história.

Sua vida é o jazz. Tido por muitos como o estilo de música mais difícil de ser tocado,  exige muita dedicação, e empenho. Na sua escola de música, o fictício Conservatório Schaffer de Nova Iorque, Andrew se esforça o bastante para conseguir entrar na Studio Band, a big band oficial do Conservatório que faz apresentações pelo país. A partir desse momento, porém, enfrenta uma grande barreira: conseguir se superar de uma maneira extraordinária para poder conseguir se manter onde chegou.

23 de fevereiro de 2015

Pílulas pra Alma #3

Para pensar sobre os outros

Quem ser esse ser será
Que diz quando fala, vê
Bate-se em mim como em si
Com a vivência de viver a vida

20 de fevereiro de 2015

O funcionário do mês


Bernardo ainda sonhava com uma praia paradisíaca sob o sol escaldante quando o ruído infernal de seu despertador cumpriu o serviço que lhe foi encarregado. Ele não praguejou, pois sempre aprendeu a cumprir suas obrigações de cidadão sem reclamar. O sol agraciava a janela com sua luz matutina. Observou os quadros de "funcionário do mês" na parede, formando um mosaico previsível e sem sobressaltos, exatamente como era sua vida. O quarto arrumado, asseado, organizado e exemplar era um verdadeiro retrato de sua rotina.

Alinhou-se, pegou a pasta e partiu em busca do título de funcionário do mês de fevereiro. Faturou o prêmio nos últimos 42 meses e estava decidido a ganhar novamente. O elogio sutilmente debochado de seu patrão era o que alimentava sua alma. O cobiçado reconhecimento como o número 0186329, o que mais rendia lucros para a empresa, era a cenoura na ponta da vara para aquele burro de carga que corria desesperadamente mês após mês atrás de suas valiosas comissões.

Bernardo era o melhor corretor de imóveis da cidade, quiçá de todo o universo conhecido. Nenhuma coordenada possível do tempo-espaço possuía um profissional tão qualificado como ele. Gel no cabelo, camisa engomada, gravata amarrada, rosto lavado. Bernardo saiu de casa em sua religiosa peregrinação diária à Meca do proletariado, sem nem olhar para o lado. Não notou o tapume que havia aparecido, vizinho à sua casa, muito menos o canteiro de obras que se instalara no local. Nem teria interesse ou curiosidade para tanto, pois deveria chegar pontualmente às 10 horas no escritório.

Escreve, rabisca, grampeia, atende, telefona, marca, cumpre, planeja, relata, digita, calcula, acerta. Não assina. Quem assina é o patrão. Volta para o dormitório, às vezes conhecido como residência. O prédio ao lado brilhava como novo, imponente, erguendo-se muitos metros acima da cabeça de Bernardo, que nem tinha consciência dele.

A praia voltava como uma maré que subia em seu inconsciente, mas o alarme o puxara de volta à realidade. O sol já não tocava sua casa, coberta pela sombra do magnífico edifício envidraçado, que pulsava como um coração jovem. Bernardo seguiu seu código disciplinar à risca para se arrumar e partir novamente em sua pateticamente emocionante jornada rotineira.

Desviou, apressado, de um novo canteiro de obras no caminho. O relógio, assim como Bernardo, continuava seu ciclo, aproximando o ponteiro menor das 10 horas enquanto ele se aproximava do escritório. Em seu crachá, o número 0186329. Escrevinhou, ligou, agendou, teclou, obedeceu, estacou. O novo quadro de funcionário do mês foi pendurado. Apenas Bernardo correu para ver o detentor da glória, que, previsivelmente, era ele mesmo mais uma vez.

Foi até a sala do chefe para receber as congratulações de praxe que tanto o sensibilizavam. Ao fim do expediente, pegou o retrato para levar embora. Metódico, tinha de colocar em sua parede para alimentar o mosaico. Percorreu o caminho de volta apressado, carregando o prêmio nos braços. No entanto, sua rotina foi finalmente quebrada quando ele se deparou com um enorme prédio em frente à sua casa. O empreendimento tinha 50 apartamentos, dos quais metade ele próprio havia vendido.

Pela primeira vez em anos, abriu os olhos para algo diferente. Não tinha como chegar em casa para pendurar seu quadro. Ficou parado, sem saber o que fazer. Algo inédito aconteceu: ele abarrotou a camisa. Por uma boa causa, entretanto. Pulou o muro do único terreno baldio que havia ao lado de onde morava, aventurou-se pelo mato e, por fim, alcançou sua residência, no meio do quarteirão.

Gozou dos louros da vitória enquanto posicionava o 43º retrato em sua parede. Apesar do barulho de homens trabalhando, ele adormeceu contente com sua façanha. Mas sua felicidade, ou o que ele achava que era, não duraria muito tempo. Logo surgiu a imagem do mar ao pôr do sol, com as ondas batendo em rochas esculpidas pela água cristalina. Os pés de Bernardo estavam sujos de areia enquanto ele observava sereno as gaivotas que pousavam nas pedras. As aves alçaram voo assim que o despertador distribuiu sua fúria em acordes dissonantes que trouxeram o funcionário do mês de volta à sua casa.

Mais uma vez, cumpriu os afazeres matutinos para se preparar para mais um dia de trabalho. Penteou o cabelo, passou a camisa, fez o nó de sua gravata, pegou a sagrada pasta de cima da mesa e estava prestes a sair quando se lembrou que não havia como passar pelo prédio que se impunha entre a porta da sala e a calçada. Quando tentou pular o muro do terreno ao lado, descobriu um gigantesco empreendimento que bloqueava seu caminho. Ele estava rodeado, sem escapatória.

O relógio, diferente de Bernardo, continuava sua trajetória, impiedoso, apenas saboreando a imagem daquele homem desesperado e, pela primeira vez na sua vida, atrasado. Para todos os lados que ele olhava, um enorme prédio se erguia, impedindo sua passagem.

A respiração, ofegante, já era audível à distância. Cada vez que o homem arfava, sua face, cujos músculos, tensionados, compunham a figura horripilante de um ser perturbado, demonstrava mais agitação. Secou o suor que escorria pela testa. Imagens terríveis se sobrepunham em sua mente de forma caótica. Saiu correndo na direção oposta aos edifícios. Pulou tapumes de construção, passou por operários que levavam sacos de cimento para criar mais uma torre. Não sabia muito bem onde se encontrava, mas um pensamento insistente martelou sua cabeça até desaguar em palavras que saíram rastejantes de sua boca.

-Eles estão vindo. - murmurou, os olhos arregalados fitando seu interlocutor desconhecido. - Eles estão vindo me pegar!

-Quem está vindo, Bernardo? - falou uma voz firme e segura, que abria caminho por entre os ruídos conflitantes de sua mente. O desconhecido vestia um sobretudo, óculos escuros e um chapéu, que ocultavam sua face

-Todos! Todos eles! - levou as mãos à cabeça em um gesto de autoproteção. - Vão levar meus quadros embora! Vou me atrasar e não vão mais elogiar meu trabalho!

-E para quê você quer isso? Esse reconhecimento realmente muda algo em sua vida? Você está apenas servindo aos interesses de seu chefe, engrossando suas cifras enquanto se contenta com palavras falsas e ardilosas que não levam a lugar algum.

-Quem é você para dizer isso?

-Eu sou você. - respondeu, tirando o chapéu e os óculos para revelar a identidade. Seu rosto era exatamente idêntico ao de Bernardo. Ele assustou-se com a visão e ficou paralisado ao ver a semelhança. Era como se estivesse olhando para um espelho. O desconhecido, no entanto, não tinha o cabelo arrumado dele, nem suas roupas alinhadas, tampouco o olhar perdido e as pálpebras caídas. Ele tinha um aspecto jovial e esbanjava vivacidade com suas vestes despojadas e aparência confiante, muito diferente da expressão monótona de Bernardo. A figura desapareceu diante de seus olhos e ele pôde enxergar uma porta no muro de trás de sua casa.

Talvez nunca tivesse reparado nela, suja e mal cuidada, escondida em um canto. Dirigiu-se a ela, girou a maçaneta e deparou-se com uma trilha em meio aos prédios que não paravam de crescer. Bernardo não aguentava mais aquela visão. Sabia que tinha de chegar ao escritório para vender mais e mais apartamentos. Tinha metas a bater. Ele não podia perder o posto de funcionário do mês. Mas algo dentro de si parecia ter se libertado. Uma força misteriosa que buscava felicidade em sua forma mais pura e primitiva.

Ele sentia sua alma agitada com a porta que descobrira nos fundos de casa. Talvez estivesse desejando aquilo desde o instante em que começara sua empreitada pelo título que cobiçou nos últimos 43 meses. Mais um prédio estava levantado ao lado da porta e sua própria casa se tornara um canteiro de obras. Em breve, ele não teria mais nem sua parede cheia de retratos. Tudo o que ele prezava estava sendo tomado pelas empreiteiras que ganhavam dinheiro às custas de seu trabalho. Ele engoliu em seco.

Disparou pelo caminho até encontrar uma praia deserta, cujas rochas eram talhadas pela força das ondas e os pássaros revoavam cantando a tarde inteira. Bernardo olhou para trás e viu a cidade, sempre crescendo, abrindo espaço para novos arranha-céus que escalavam a paisagem. Afrouxou a gravata. Descalçou os sapatos finos e abriu os botões da camisa. Deixou a maleta cair sobre a areia. Longe dali, o número 0186329 já havia sido substituído pelo mais novo prodígio da corretagem de imóveis.

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